Monica Pranzl

Monica Filipini, SP

Aos 38 anos, esta engenheira de produção e mãe de Leo (3 anos) e Maria (1 ano), é casada com Marcelo Braga e já ganhou diveros campeonatos e realizou importantes encadenamentos para a escalada feminina brasileira.

Ela é uma das mais conhecidas escaladoras esportivas do Brasil, e agora “meio parada” pois está “lambendo a cria”. Referência para muitos, parte ativa da história da escalada no Brasil, escalou muitas clássicas em paredes como Salinas, por exemplo, mas tem seu ponto forte na esportiva onde quebrou vários recordes femininos de escalada esportiva em rocha. Foi a primeira a encadenar, todos os graus atléticos de 8a a 9c.  Em 1992 guiou o Ácido Fórmico (8a); em 1996  Brain Lock (9a) e em 2001, guiou o Filezão (9c) na Barrinha (RJ), além, claro das vias Bam-Bam (9a/b), Sombras Flutuantes (9b/c), Heróis da Resistência (9c), Morfina (9a/b), Filezinho (9b), dentre outras. Em 95 sofreu um acidente em um campeonato em rocha onde quebrou perna, nariz e vértebras, mas mesmo assim continuou escalando. E como...

Vamos começar pela escalada né !!! Desde quando? Conquistas pessoais? As vias que foram mais marcantes, e porque?
Meu primeiro Costão do Pão de Açúcar foi aos 15 anos, e então escalava  uma vez por ano até os 20, quando comecei a escalar com mais freqüência. Comecei a escalar não por opção, mas por falta de companhia. Ia muito para a casa de um amigo em Poço Fundo, uma grande escola de aderência. Os garotos iam escalar e as namoradas ficavam em casa, até que a namorada do meu amigo começou a ir também. Aí ficar em casa sozinha não dava, né? Mais tarde, não me lembro quando, pois já faz muito tempo, comecei a tentar as vias esportivas. O início foi duro, porque ninguém escalava em muro e as vias mais fáceis eram 7º grau. Lembro-me que minha 1ª meta era conseguir ficar 3 segundos pendurada na primeira agarra do Acido lático  (via do “Paredão” dos Ácidos na Urca). Meta essa obviamente estabelecida pelo Marcelo, o “mestrão” (assim o chamava nossa querida Robertinha). Teve também o Urubu sacana em 3 lições, que deu super certo! Conquistas pessoais de vias “difíceis”. Na época o Urubú mestre, depois a Heróis, onde brinquei muito até tentar mesmo,  a Morfina, o Filezão, Frases Feitas,..  Teve uma via em Ceuse que também foi legal de encadenar, a Blanche Fesses. As mais marcantes acho que foram o Atalho do Diabo, no Corcovado com direito a bivaque olhando minha casinha lá de cima, uma via clássica em Tonsai na Tailândia, chamada Humanality, alucinante, com chorreiras e estalactite gigante com aquele visual do lugar. Tem também a Fiesta de Los Bíceps, em Riglos, incrível, conglomerado, aquelas bolotas gigantes parecendo que vão despregar-se mas felizmente isso não aconteceu, e no final a via vai ficando negativa, nas últimas paradas a corda fica totalmente pendurada.. E também as vias do pico Maior de Salinas, nenhuma muito em especial, mas pelo “conjunto da obra”! 

Você se identifica mais com a esportiva... sempre foi assim? porque?
Acabei indo pra esportiva acho que pelas seguintes razões: uma é que me sentia mais à vontade para guiar, pois as vias em geral são mais protegidas, com quedas menores e no negativo. Outra razão é que gosto dos quebra-cabeças que rolam na esportiva, de descobrir como fazer um lance, de otimizar ao máximo os movimentos para encadenar uma via.. e tem também outras coisas, dá pra acordar mais tarde pra escalar, as divertidas malhações nos muros caseiros, as galhofas nas falésias.. Ah, e tem também o seguinte: como não temos vias suficientes na cidade (RJ) para escalar à vista, pra ficar repetindo via é melhor ficar tentando um projeto, né? Mas tenho que reconhecer que uma escalada longa faz muito mais a cabeça no final do dia do que a falésia...

Conta um pouco sobre seu acidente.
História longa... Mas vale a pena pelo alerta, vou tentar resumir: Campeonato em rocha, regras diferentes do usual, um monte de gente nas bases, cheguei atrasada e me deixaram participar. Tudo para dar errado, né? E ainda tem mais... As vias eram os inícios das vias existentes, e a que eu escolhi tinha 30m (porque não 25, que era a metade de 1 corda de 50, padrão da época?) Escolheram um escalador de academia para me dar segurança (não me avisaram que eu poderia e deveria escolher o segurador). Guiei a via, quando cheguei no final perguntei se devia rapelar e me disseram, - não, ele vai te descer.. E desceu mesmo! A corda não era suficiente e é claro que ele não estava encordado nem tinha um nozinho na ponta e muito menos estava ligado no que estava fazendo! Resultado: perna, nariz e vértebra quebradas, várias cirurgias, péssimo!  Isso sem falar na grana, na época foi um carro 0km gasto com médicos..  E pra ver como as pessoas não estão nem aí, o campeonato continuou como se nada tivesse acontecido, precisou o Marcelo ir lá e dar um ataque pra cancelarem a coisa. Mas fica a mensagem de que escalada é coisa séria, e pra fazer um campeonato não é só juntar uma galera e botar todo mundo pra escalar...

Escaladores que te inspiravam antes e agora.
Bom vou falar só dos de antes , porque agora nem sei quem escala! E também dos que conheci, porque não acompanho muito o que acontece lá fora. E na verdade é mais admiração do que inspiração... Primeiro o maridão, pela sua motivação e disposição para treinar, e também pela sua destreza nas escaladas de aderência! Temos ainda Alexandrinho Portela, Juanjo do Chile, a Paloma Cardoso, o Pita, o Fabinho Muniz... E claro, o Chris Sharma, que tive a oportunidade de conhecer um pouquinho e ver escalar lá em Ceuse, quando ele tava tentando a Biographie.


Conta, sob seu ponto de vista, a evolução da escalada esportiva no RJ... lado bom...e o nem tão bom...
A escalada esportiva no RJ é movida principalmente pela oferta de vias em rocha, pois infelizmente não temos nenhuma academia de escalada. Sendo assim, eu vejo 2 principais fases depois dos primórdios da escalada esportiva, quando esse nome ainda nem existia mas Alexandre Portela e Sergio Tartari já conquistavam sétimos e oitavos por aí.
A primeira fase foi a época da aberturas das vias do campo escola 2000, encabeçada por Helmut Becker, escalador que reúne as qualidades de escalar bem e produzir muito. O Campo Escola ganhou mais vias fortes, entre elas a Coquetel de energia, acho que a mais difícil do Brasil por um bom tempo, e também a reforma do História sem fim, que teve suas agarras artificiais retiradas e seu final prolongado. Isso sem dúvida popularizou mais a “Floresta”  e deu um gás no nível da escalada esportiva.
A segunda fase começou quando veio a Barrinha, devidamente metralhada por outro forte escalador-conquistador, o Pita! Mais um gás na esportiva, vários nonos, décimos, todos de resistência, ou seja, dá pra ficar brincando até fazer. E mais uma vez a via mais difícil do Brasil, a Massa Crítica... 
Além dessas 2 principais fases, mais recentemente houve a febre de boulder, que fez com que inúmeros lances fossem extraídos de qualquer cascalho da Urca. Tanta “forçação de barra” sem dúvida malhou os bracinhos dos adeptos da modalidade! 
E isso tudo é muito bom, mais vias para escalar, afinal não tínhamos muitas vias esportivas no Rio.. O lado ruim é o de sempre, né, fila nas vias, vias ensebadas de magnésio porque a maioria não limpa...


O que te move? o que te pára?
O que me move são projetos de vias mais difíceis e vias novas, mas com o avanço da idade acho que ficarei mais com as vias novas, o que na nossa realidade significa viagens! O que me pára? Falta de objetivos e falta de tempo.. Ah, e tem o medo de me machucar que atrapalha bastante também, chega de fraturas, acho que o plano de saúde me expulsa se eu der mais prejuízo!

 

Treino?
Pois é, nunca levei muito a sério.. Treino pra mim sempre foi escalar no muro com os amigos, sem nenhum planejamento, sou muito displicente! E olha que exemplo: muro em casa não falta.. Mas o muro de casa não anima muito, está com as agarras no mesmo lugar desde que foi construído, o Marcelo não deixa trocar, existe isso? Eu olho pro muro com aquele mesmo layout de 7 anos atrás e me dá um desânimo! Aí que uma academia boa ajudava.. Alô Alô Alê Silva, cadê a filial carioca da Casa de Pedra?


Vida agora... planos...
Há quase 4 anos que estou parada, atualmente o pouco tempo que me resta além do trabalho fico com os filhotes, que ainda são pequenos e precisam da mãe.. Além disso tenho que aproveitar, porque a idade que eles estão é maravilhosa e passa muito rápido, daqui a pouco eles crescem e não vão querer mais saber de mim!  Acho que ano que vem já dá pra voltar a escalar, só não sei se com disposição pra treinar muito, mas pelo menos escaladinhas no fim-de-semana e alguma viagenzinha pra escalar tem que rolar, morro de saudades da escalada e de tudo que ela proporciona.

 

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