Mulherada Radical

por Fernanda Rocha, MG

 

Francine escalando na Serra do Cipó - Murilo Vargas
Francine escalando na Serra do Cipó - Foto: Murilo Vargas.

Não é de hoje que a escalada vem crescendo no Brasil. A atividade vem deixando de ser um universo de malucos, para ser considerada um lazer, uma forma de estar em contato com a natureza, e mais que qualquer coisa, vem crescendo como esporte.
Em tempos passados, as mulheres nem eram vistas em áreas de escalada, era barba e bigode e só, mas como disse, com o fomento da atividade, pouco a pouco foram aparecendo as meninas da escalada, umas apareceram e se foram, outras tantas chegaram para ficar e fazer história.
Minas Gerais é um estado famoso pela quantidade e qualidade da rocha, e também conhecido pelas belas e simpáticas mineiras. Posso dizer que a mulherada está barbarizando e fazendo bonito. Acho importante que mulheres ocupem espaços antes não explorados, temos talento, leveza, somos determinadas e guerreiras, afinal, viemos para gerar filhos, e isso é uma carga muito intensa; que nos faz fortes e frágeis ao mesmo tempo, mágicas da natureza! Podemos surpreender em vários aspectos e que fique claro: para mim não vale ganhar a liberdade e virar feminista, pois se a idéia é vencer o machismo, nada de tentar nos igualar aos homens, mas sim mostrar do que somos capazes, nossas habilidades, nossa garra, nossa forma carinhosa de fazer força. Eu mesma sou contra qualquer forma de comparação, o que me move é o espírito de liberdade, e para sentir na íntegra, é preciso também libertar a mente das coisas mundanas, quem é melhor; quem fez o que...
Quando comecei a escalar, me deparei com lugares exóticos, lugares que remetiam a minha infância, a natureza tem poderes que desconhecemos, ela acalma nosso espírito. Fui convidada pelo Eduardo “Ralf” para escalar a cachoeira do Tabuleiro 273m de queda. Simplesmente tentar descrever a sensação, estaria diminuindo a real emoção... A partir dessa expedição, ele começou a me chamar para escalar outras paredes, mas como ele diz, virei uma fominha, e eu mesma o obrigava a me levar para todas as outras roubadas que vieram. Daí foi como um vício, fui arrebatada, e entrei em uma espécie de transe, largando a faculdade e resolvendo viver de escalada... Ainda continuo nesse transe, na verdade, é preciso ser um guerreiro para sobreviver de escalada no Brasil, mas costumo dizer que é mais forte que eu, nem eu sei direito o porquê dessa escolha, mas sei que foi assim...
Desde então comecei a fazer tudo que as pedras poderiam me proporcionar, na esportiva, minha meta era fazer a tradicional Sinos de Aldebarãn, na época, nenhuma mulher havia ainda a escalado sacando costuras, era uma via mítica, e virou meu mais novo sonho. Falei para o Universo: “quero escalar aquela via”, o Ralf me disse: “quando mandar a Lamúrias você pode entrar nela. Tratei de mandar logo a Lamúrias e entrei avistando a Sinos, no perrengue, um crux na seqüência do outro, afinal, era uma via 8c e eu havia mandado um 7b, tinha dois anos de escalada, não tinha aquela pressão que a via exige, mas não estava preocupada com o grau e sim com aquela linha maravilhosa, até dedo dentro do grampo rolou, e quando cheguei no cume, meus olhos se encheram de lágrimas, pois eu tinha acabado de realizar um sonho, chamei meu parceiro Kaka, (Edgardo Abreu), que foi responsável pelo meu sucesso, porque o cara tem a vibe da montanha e me colocou a maior pilha, porque alguns tentaram me fazer medo, dizendo que tinha abelha na via. E realmente tinha, mas eu me entendi bem com elas, e era uma espécie inofensiva que no máximo enrola no cabelo. Mas me apaixonei mesmo pelas grandes paredes, nossas montanhas brasileiras... Pelo conjunto da obra, a logística da organização, os parceiros que você escolhe para conviver durante dias; às vezes dividindo um pequeno platô, ou até mesmo dividindo grampos em uma parada, os lugares virgens cheios daquela energia selvagem, nossa! Eu pirei! Eu piro! Ver o mundo do alto aumenta nosso campo de percepção, mostra como somos pequenos, e como o mundo é grande! Faze-te crer em coisas que a sociedade não ensina, como ser companheiro, hoje é cada um por si, mas na montanha a união faz a diferença, e não é só isso, existe algo subliminar, como fazer força, parece aliviar o karma, mas isso já é coisa minha. Acredito que a escalada me trouxe uma disciplina espiritual, que fala mais alto que qualquer voz, como a voz do ego, por exemplo; que, nossa, como é insistente! Na parede nem sempre o sucesso é garantido, é preciso superar também a idéia de que o cume muitas vezes não é alcançado, na minha última expedição mesmo, carregamos cargueiras lotadas de equipamentos, subimos um rampão de duzentos metros, que tive que guiar todo molhado, (uma adrenalina que não quero passar mais), uma hora e tanta de subida e a chuva nos fez voltar para casa, com o sonho de retornar naquela montanha e dormir na parte mais alta dela, mas não foi daquela vez... Bom demais também, eu sou da teoria que, enquanto está tudo bem, não vale ficar chorando ou ficar nervoso à toa, a vida é esplêndida, as pessoas é que poluem com suas ganâncias e disputas, para mim tudo é lindo e maravilhoso sempre quando é mesmo. Melhor ainda é chegar de uma roubada e encarar uma escalada esportiva para relaxar, encontrar amigos e amigas, ah é, estávamos falando das garotas. Elas estão em alta, na esportiva estão atingindo níveis elevados, quando comecei a escalar, Minas não tinha a cultura feminina da esportiva, era uma escalada sem maiores comprometimentos, ouvíamos falar de escaladoras que mandavam grau alto, como a Mônica Pranzl do Rio, a Vanessa Valentim e a Gisele Ferraz do Paraná. Hoje já temos mineiras que mandaram oitavos e nonos graus. Eu já cheguei a mandar até nono grau, mas minha paixão mesmo é a montanha, foi ela que me fez largar a faculdade, amo a esportiva, mas estava difícil conciliar a escalada de parede e ela, pois meu patrocínio é para escalar paredes, então é minha prioridade, cheguei a ter overtrainning por excesso de treinamento, e resolvi não me cobrar cadenas e sim priorizar as escaladas de parede. Quando estava prestes a mandar um 9c, tinha que ir para expedição, e aí resolvi deixar o tempo cumprir seu papel, ainda tenho poucos anos de escalada, seis, e sei que alguns resultados na esportiva vão vir com tempo, sem stress, porque como disse, não é prioridade para mim. Mas continuo entrando em vias pesadas, não só eu, uma quantidade razoável de mineiras. Temos a Roberta Resende, mineira carioca, mandando também vários oitavos e nonos sem pestanejar, a Rafaela Discaciati moradora do cipó, escala bonito e forte, a Marcela Renalde que, começou para acompanhar o marido, e agora está enfeitando as vias pesadas da serra, a Gisele Alcântara, grande amiga, mulher forte, divertida, morde as agarras sem reclamar. A Anne Louise, escaladora que começou mandando bem, sabe aquelas que você vê que já é forte sem treinar? A Fabíola Dellaretti, nossa mamãe radical, sarada e disposição total. A Maíra de Oliveira, menina caladinha, quando distraímos lá estava ela, nas vias clássicas e difíceis, a Flor dos Santos, nativa da Serra do Cipó, escaladora destemida, sagaz, a Ana Magalhães, menina doce e forte, nossa ! Deixa eu me lembrar das outras... Tem as meninas da Escalada das Minas, que são das antigas aqui nas Gerais. Não podemos esquecer o pouco tempo que ainda temos na escalada esportiva aqui em Minas, a falta de incentivo, tudo isso faz com que o nível demore mais a se elevar, mas a verdade é que o nível já está alto!

Rompendo barreiras
As mulheres estão rompendo barreiras, vencendo obstáculos, ocupando espaços, superando limites e trazendo beleza e doçura para as rochas.
Acredito que atualmente em Belo Horizonte, temos umas trinta escaladoras, espalhadas pelo estado, deve ter muitas que ainda nem conheci.
Eu gostaria muito de mandar um recado de coração, que todas as mulheres acabem com essa lenda que somos competitivas entre nós, não precisamos disso, cada uma tem um segredo guardado, uma característica própria, que nos diferencia. Além do mais, como falei no começo, nascemos para ser mãe, não para competir entre nós, devemos desenvolver nosso lado amigo, materno. Assim desenvolveremos nossa própria personalidade, o importante é manter o foco em nossos defeitos e superá-los, assim como superamos o crux de cada via.
Vamos acabar com essa estória chata e banal, vamos escrever uma nova história, onde as mulheres não serão seres competitivos, mas sim seres amáveis, prontas para carregar um anjo nos braços, prontas para ajudarmos umas as outras. Enfim, vamos escalar, curtir a vida curta!
A verdade então é essa, a escalada aqui em Minas vem crescendo e com ela, também aumentando a quantidade de mulheres, mulheres fortes e bonitas e foi tanta; que me veio a idéia de fazer um calendário feminino de escalada, a vontade era de colocar todas, mas são apenas doze meses, sendo assim, tive que escolher doze, na maioria meninas de BH,algumas estavam lá na hora, outras porque realmente tinham que participar, como a Janine Cardoso, seis vezes campeã brasileira, não dava para não colocar. A idéia do calendário é passar a beleza da mulher, a unha pintada, o top colorido, o brinco, a faixinha no cabelo, o rabo de cavalo, as roupas combinando, a leveza na hora dos movimentos, enfim, é uma arte uma mulher na pedra, e o calendário deseja retratar isso. Esse vai ser o calendário 2010, o primeiro, mas vamos fazer todo ano, esse foi todo na Serra do Cipó, por falta mesmo de recursos, mas a idéia é rodar o Brasil em busca de belas escaladoras em vias exuberantes, e sei que não vai ser difícil. Gostaria de agradecer o Gustavo Baxter e o André Portugal, profissionais que estão trabalhando comigo no projeto e abraçaram a idéia, porque de certa forma, já tinham sonhado em fazer esse trabalho, quero agradecer também ao Eliseu Frechou e ao Eduardo “Ralf” Azevedo, que não me deixaram desistir, porque acreditaram no projeto,a Conquista e a Snake que apoiaram com equipamentos, as garotas Dedos Fritos que brilharam nas vias, arrasaram, isso vocês vão poder conferir e sei que vão concordar comigo.
As que não entraram no calendário desse ano, realmente foi por falta de espaço, mas cada uma delas seria uma bela página de algum mês.
Quando escrevo para o Mountain Voices, confesso que fico emocionada, pois o montanhismo mexeu e mexe muito comigo, modificou minha vida, hoje poderia ser uma advogada, mas vivo a vida subindo montanhas, e quando pensei em desistir, o Eliseu novamente me deu uma palavra de incentivo, que talvez ele não saiba o quanto isso significou para mim, acredito mesmo nas vozes das montanhas... Acredito que as dificuldades estão aí para serem vencidas, as vias estão para serem escaladas e eu levo isso pela vida, a garra na hora de tentar catar um reglete no bote, parece que não vai dar, e a gente descobre uma força interna que desconhecíamos, a mão fica e a sensação é de vitória. Quando fazemos um furo de grampo na munheca, parece que aquilo é uma coisa impossível, que nunca você vai conseguir romper a rocha dura, mas pouco a pouco vai nascendo aquele furinho, quase sempre no perrengue, tipo, precisava sair logo, mas é preciso ter paciência, e quando se menos espera, você está a salvo, e por você mesmo, pelas suas próprias mãos! Realmente o montanhismo é uma coisa mística, difícil tentar descrever as sensações. Quando se está num boulder, fazendo força surreal, é uma sensação de se estar brincando novamente e isso faz com que a gente se sinta feliz, vivos.


Fernanda Rocha tem patrocínio da Prana Ltda.
Apoio da Conquista, Snake, Adrena Esporte e Aventura.
 

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