Mulherada Radical

Francine escalando na Serra do Cipó - Foto: Murilo Vargas.
Não é de hoje que a escalada vem crescendo no Brasil. A atividade vem
deixando de ser um universo de malucos, para ser considerada um lazer,
uma forma de estar em contato com a natureza, e mais que qualquer coisa,
vem crescendo como esporte.
Em tempos passados, as mulheres nem eram vistas em áreas de escalada,
era barba e bigode e só, mas como disse, com o fomento da atividade,
pouco a pouco foram aparecendo as meninas da escalada, umas apareceram e
se foram, outras tantas chegaram para ficar e fazer história.
Minas Gerais é um estado famoso pela quantidade e qualidade da rocha, e
também conhecido pelas belas e simpáticas mineiras. Posso dizer que a
mulherada está barbarizando e fazendo bonito. Acho importante que
mulheres ocupem espaços antes não explorados, temos talento, leveza,
somos determinadas e guerreiras, afinal, viemos para gerar filhos, e
isso é uma carga muito intensa; que nos faz fortes e frágeis ao mesmo
tempo, mágicas da natureza! Podemos surpreender em vários aspectos e que
fique claro: para mim não vale ganhar a liberdade e virar feminista,
pois se a idéia é vencer o machismo, nada de tentar nos igualar aos
homens, mas sim mostrar do que somos capazes, nossas habilidades, nossa
garra, nossa forma carinhosa de fazer força. Eu mesma sou contra
qualquer forma de comparação, o que me move é o espírito de liberdade, e
para sentir na íntegra, é preciso também libertar a mente das coisas
mundanas, quem é melhor; quem fez o que...
Quando comecei a escalar, me deparei com lugares exóticos, lugares que
remetiam a minha infância, a natureza tem poderes que desconhecemos, ela
acalma nosso espírito. Fui convidada pelo Eduardo “Ralf” para escalar a
cachoeira do Tabuleiro 273m de queda. Simplesmente tentar descrever a
sensação, estaria diminuindo a real emoção... A partir dessa expedição,
ele começou a me chamar para escalar outras paredes, mas como ele diz,
virei uma fominha, e eu mesma o obrigava a me levar para todas as outras
roubadas que vieram. Daí foi como um vício, fui arrebatada, e entrei em
uma espécie de transe, largando a faculdade e resolvendo viver de
escalada... Ainda continuo nesse transe, na verdade, é preciso ser um
guerreiro para sobreviver de escalada no Brasil, mas costumo dizer que é
mais forte que eu, nem eu sei direito o porquê dessa escolha, mas sei
que foi assim...
Desde então comecei a fazer tudo que as pedras poderiam me proporcionar,
na esportiva, minha meta era fazer a tradicional Sinos de Aldebarãn, na
época, nenhuma mulher havia ainda a escalado sacando costuras, era uma
via mítica, e virou meu mais novo sonho. Falei para o Universo: “quero
escalar aquela via”, o Ralf me disse: “quando mandar a Lamúrias você
pode entrar nela. Tratei de mandar logo a Lamúrias e entrei avistando a
Sinos, no perrengue, um crux na seqüência do outro, afinal, era uma via
8c e eu havia mandado um 7b, tinha dois anos de escalada, não tinha
aquela pressão que a via exige, mas não estava preocupada com o grau e
sim com aquela linha maravilhosa, até dedo dentro do grampo rolou, e
quando cheguei no cume, meus olhos se encheram de lágrimas, pois eu
tinha acabado de realizar um sonho, chamei meu parceiro Kaka, (Edgardo
Abreu), que foi responsável pelo meu sucesso, porque o cara tem a vibe
da montanha e me colocou a maior pilha, porque alguns tentaram me fazer
medo, dizendo que tinha abelha na via. E realmente tinha, mas eu me
entendi bem com elas, e era uma espécie inofensiva que no máximo enrola
no cabelo. Mas me apaixonei mesmo pelas grandes paredes, nossas
montanhas brasileiras... Pelo conjunto da obra, a logística da
organização, os parceiros que você escolhe para conviver durante dias;
às vezes dividindo um pequeno platô, ou até mesmo dividindo grampos em
uma parada, os lugares virgens cheios daquela energia selvagem, nossa!
Eu pirei! Eu piro! Ver o mundo do alto aumenta nosso campo de percepção,
mostra como somos pequenos, e como o mundo é grande! Faze-te crer em
coisas que a sociedade não ensina, como ser companheiro, hoje é cada um
por si, mas na montanha a união faz a diferença, e não é só isso, existe
algo subliminar, como fazer força, parece aliviar o karma, mas isso já é
coisa minha. Acredito que a escalada me trouxe uma disciplina
espiritual, que fala mais alto que qualquer voz, como a voz do ego, por
exemplo; que, nossa, como é insistente! Na parede nem sempre o sucesso é
garantido, é preciso superar também a idéia de que o cume muitas vezes
não é alcançado, na minha última expedição mesmo, carregamos cargueiras
lotadas de equipamentos, subimos um rampão de duzentos metros, que tive
que guiar todo molhado, (uma adrenalina que não quero passar mais), uma
hora e tanta de subida e a chuva nos fez voltar para casa, com o sonho
de retornar naquela montanha e dormir na parte mais alta dela, mas não
foi daquela vez... Bom demais também, eu sou da teoria que, enquanto
está tudo bem, não vale ficar chorando ou ficar nervoso à toa, a vida é
esplêndida, as pessoas é que poluem com suas ganâncias e disputas, para
mim tudo é lindo e maravilhoso sempre quando é mesmo. Melhor ainda é
chegar de uma roubada e encarar uma escalada esportiva para relaxar,
encontrar amigos e amigas, ah é, estávamos falando das garotas. Elas
estão em alta, na esportiva estão atingindo níveis elevados, quando
comecei a escalar, Minas não tinha a cultura feminina da esportiva, era
uma escalada sem maiores comprometimentos, ouvíamos falar de escaladoras
que mandavam grau alto, como a Mônica Pranzl do Rio, a Vanessa Valentim
e a Gisele Ferraz do Paraná. Hoje já temos mineiras que mandaram oitavos
e nonos graus. Eu já cheguei a mandar até nono grau, mas minha paixão
mesmo é a montanha, foi ela que me fez largar a faculdade, amo a
esportiva, mas estava difícil conciliar a escalada de parede e ela, pois
meu patrocínio é para escalar paredes, então é minha prioridade, cheguei
a ter overtrainning por excesso de treinamento, e resolvi não me cobrar
cadenas e sim priorizar as escaladas de parede. Quando estava prestes a
mandar um 9c, tinha que ir para expedição, e aí resolvi deixar o tempo
cumprir seu papel, ainda tenho poucos anos de escalada, seis, e sei que
alguns resultados na esportiva vão vir com tempo, sem stress, porque
como disse, não é prioridade para mim. Mas continuo entrando em vias
pesadas, não só eu, uma quantidade razoável de mineiras. Temos a Roberta
Resende, mineira carioca, mandando também vários oitavos e nonos sem
pestanejar, a Rafaela Discaciati moradora do cipó, escala bonito e
forte, a Marcela Renalde que, começou para acompanhar o marido, e agora
está enfeitando as vias pesadas da serra, a Gisele Alcântara, grande
amiga, mulher forte, divertida, morde as agarras sem reclamar. A Anne
Louise, escaladora que começou mandando bem, sabe aquelas que você vê
que já é forte sem treinar? A Fabíola Dellaretti, nossa mamãe radical,
sarada e disposição total. A Maíra de Oliveira, menina caladinha, quando
distraímos lá estava ela, nas vias clássicas e difíceis, a Flor dos
Santos, nativa da Serra do Cipó, escaladora destemida, sagaz, a Ana
Magalhães, menina doce e forte, nossa ! Deixa eu me lembrar das
outras... Tem as meninas da Escalada das Minas, que são das antigas aqui
nas Gerais. Não podemos esquecer o pouco tempo que ainda temos na
escalada esportiva aqui em Minas, a falta de incentivo, tudo isso faz
com que o nível demore mais a se elevar, mas a verdade é que o nível já
está alto!
Rompendo barreiras
As mulheres estão rompendo barreiras, vencendo obstáculos, ocupando
espaços, superando limites e trazendo beleza e doçura para as rochas.
Acredito que atualmente em Belo Horizonte, temos umas trinta
escaladoras, espalhadas pelo estado, deve ter muitas que ainda nem
conheci.
Eu gostaria muito de mandar um recado de coração, que todas as mulheres
acabem com essa lenda que somos competitivas entre nós, não precisamos
disso, cada uma tem um segredo guardado, uma característica própria, que
nos diferencia. Além do mais, como falei no começo, nascemos para ser
mãe, não para competir entre nós, devemos desenvolver nosso lado amigo,
materno. Assim desenvolveremos nossa própria personalidade, o importante
é manter o foco em nossos defeitos e superá-los, assim como superamos o
crux de cada via.
Vamos acabar com essa estória chata e banal, vamos escrever uma nova
história, onde as mulheres não serão seres competitivos, mas sim seres
amáveis, prontas para carregar um anjo nos braços, prontas para
ajudarmos umas as outras. Enfim, vamos escalar, curtir a vida curta!
A verdade então é essa, a escalada aqui em Minas vem crescendo e com
ela, também aumentando a quantidade de mulheres, mulheres fortes e
bonitas e foi tanta; que me veio a idéia de fazer um calendário feminino
de escalada, a vontade era de colocar todas, mas são apenas doze meses,
sendo assim, tive que escolher doze, na maioria meninas de BH,algumas
estavam lá na hora, outras porque realmente tinham que participar, como
a Janine Cardoso, seis vezes campeã brasileira, não dava para não
colocar. A idéia do calendário é passar a beleza da mulher, a unha
pintada, o top colorido, o brinco, a faixinha no cabelo, o rabo de
cavalo, as roupas combinando, a leveza na hora dos movimentos, enfim, é
uma arte uma mulher na pedra, e o calendário deseja retratar isso. Esse
vai ser o calendário 2010, o primeiro, mas vamos fazer todo ano, esse
foi todo na Serra do Cipó, por falta mesmo de recursos, mas a idéia é
rodar o Brasil em busca de belas escaladoras em vias exuberantes, e sei
que não vai ser difícil. Gostaria de agradecer o Gustavo Baxter e o
André Portugal, profissionais que estão trabalhando comigo no projeto e
abraçaram a idéia, porque de certa forma, já tinham sonhado em fazer
esse trabalho, quero agradecer também ao Eliseu Frechou e ao Eduardo
“Ralf” Azevedo, que não me deixaram desistir, porque acreditaram no
projeto,a Conquista e a Snake que apoiaram com equipamentos, as garotas
Dedos Fritos que brilharam nas vias, arrasaram, isso vocês vão poder
conferir e sei que vão concordar comigo.
As que não entraram no calendário desse ano, realmente foi por falta de
espaço, mas cada uma delas seria uma bela página de algum mês.
Quando escrevo para o Mountain Voices, confesso que fico emocionada,
pois o montanhismo mexeu e mexe muito comigo, modificou minha vida, hoje
poderia ser uma advogada, mas vivo a vida subindo montanhas, e quando
pensei em desistir, o Eliseu novamente me deu uma palavra de incentivo,
que talvez ele não saiba o quanto isso significou para mim, acredito
mesmo nas vozes das montanhas... Acredito que as dificuldades estão aí
para serem vencidas, as vias estão para serem escaladas e eu levo isso
pela vida, a garra na hora de tentar catar um reglete no bote, parece
que não vai dar, e a gente descobre uma força interna que
desconhecíamos, a mão fica e a sensação é de vitória. Quando fazemos um
furo de grampo na munheca, parece que aquilo é uma coisa impossível, que
nunca você vai conseguir romper a rocha dura, mas pouco a pouco vai
nascendo aquele furinho, quase sempre no perrengue, tipo, precisava sair
logo, mas é preciso ter paciência, e quando se menos espera, você está a
salvo, e por você mesmo, pelas suas próprias mãos! Realmente o
montanhismo é uma coisa mística, difícil tentar descrever as sensações.
Quando se está num boulder, fazendo força surreal, é uma sensação de se
estar brincando novamente e isso faz com que a gente se sinta feliz,
vivos.
Fernanda Rocha tem patrocínio da Prana Ltda.
Apoio da Conquista, Snake, Adrena Esporte e Aventura.
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