Morro da Mina
Escalada tradicional na serra catarinense

por Filipe Roche - SC

A serra catarinense é uma região rodeada de paredes de arenito dos mais diversos tamanhos, muitas delas ainda esperando a primeira ascensão.

Falésias com paredes verticais e negativas, ou grandes paredes com fendas perfeitas, fendas verticais e longas, diedros e tetos, grandes paredes de arenito e basalto separados por camadas, dezenas de montanhas ainda intocadas por montanhistas. Neste cenário, poucas paredes são um destaque, o Morro da Mina é um.
São 200m de parede vertical e negativa de puro arenito, uma das poucas paredes grandes fora dos cânions, um morro testemunho que fica na entrada do vale do São Pedro, vale que serviu de caminho, de acesso para os campos de cima da serra no início do tropeirismo brasileiro, a “trilha dos tropeiros”é até hoje utilizada pelos moradores locais, turistas e montanhistas. Vale do São Pedro onde fica o Morro da Galeria, grande parede onde tem lindas vias tradicionais, também em arenito. Este caminho é o que eu sempre freqüento para escalar, caminhar, acampar... E sempre neste caminho, onde deixo o carro e inicio a caminhada, enquanto me preparo, almejo aquela grande parede apelidada pelos locais de Paredón, mais conhecido como Morro da Mina. Parede na qual o cume não haveria sido alcançado. Parede onde já haviam iniciado uma via a 10 anos, mas por motivos eventuais de afastamento da dupla idealizadora, a via continuou parada por muitos anos, até outras duplas tentarem continuar o trabalho, acho que umas 4 investidas, abriram 45m de via. Essa investida fez o Paredón ser visto com mais carinho, com um olhar mais criterioso dos escaladores, novamente iniciaram as investidas no setor, a trilha foi reaberta, fizemos visitas em toda base da parede oeste, procuramos água, e depois de analisar bem a parede joguei a idéia da linha da via no ar para os meus parceiros de conquistas.
Já estavámos no meio do ano, mas os treinamentos para essa conquista já vinha deste o início da temporada, objetivo traçado no final do ano passado (2010) foi conquistar algumas vias tradicionais no setor da Serrinha, repetir outras importantes e encarar o Paredón no final da temporada. Conquista de vias tradicionais foi uma novidade para mim este ano, ainda mais em vias totalmente limpas, com equipamentos de proteção móvel, e proteções fixas apenas para fazer os rapéis.



Todas essas conquistas foram de grande valia na abertura da via no Paredón, o que passamos em dezenas de vias, passamos no Paredón, a tradicional escalada em móvel nas paredes de arenito na Serra Geral de Santa Catarina, trechos com fendas perfeitas paralelas onde proteger é o mais simples, trechos com fendas cegas, ou apenas algumas rachaduras onde proteger é uma obra de arte e cair é a última opção, trechos de arenito ruim, quebradiço, podre, com areia, trechos onde é um passeio, escalar e curtir o visual e depois proteger com a boca na orelha. Tudo isso é possível encontrar em uma via na Serra, como na via “Um maluco sonhador e o segredo” que abrimos no Paredon, com grandes tetos e diedros perfeitos e longos.
Iniciamos a conquista com um trecho em arenito liso, sem agarras e sem fendas, foram 25m de uma cordada toda em artificial de rebites de 2,5cm com 0,5cm para fora para laçar com o cabo do nut e apenas 4 proteções, todas apenas tirando o fator de queda do chão, até chegar na P1 no início do mais lindo diedro de arenito que já vi. Um diedro de 45m todo com fenda para escalar entalando desde os dedos até off-width que acaba em um teto gigante. Diedro que foi vencido com paciência, boa administração de equipamentos e muito cuidado com os blocos soltos embaixo do teto, logo antes de uma passagem exposta. Esse diedro exige bastante de quem está na ponta da corda, são 45m de dureza, de fenda difícil vertical e negativa, onde colocar muitas proteções é inevitável, mas poupar proteção é obrigatório, uma luta do psicológico com a exposição, do medo com o perigo. Vencido aquele diedro impressionante acabamos debaixo de um teto ainda mais impressionante, um platô de vinte centímetros por um metro era o que nos dava o conforto para continuar a empreitada. Os próximos metros não se via onde proteger, a fenda desapareceu, e no lugar, uma rocha que parecia mais uma areia, sem condições de ficar com um clif, sem condições de uma proteção fixa segurar uma queda. A esperança era que a fenda continuasse mais acima, mas para achar a continuação, foram escalados uns 8m virando um teto em livre, protegendo em bicos de pedras, acreditando que fosse segurar ou que ao menos absorvesse a queda de fator 2. A fenda apareceu, outro teto para virar e um buraco com uma árvore para servir de parada, foi uma enfiada de apenas 15m, curta devido aos arrastos da corda nos tetos e o terceiro teto acima da P3. O terceiro teto tinha fenda, mais tranqüilo para passar, diferente do trecho antes da P2 e na saída da P2 que são E3. Na repetição da via é interessante fazer uma parada móvel bem abaixo para evitar o fator de queda na parada e o fator 2.
A virada do terceiro teto foi o início do segundo diedro, ao contrário do primeiro, a parede fica do lado esquerdo e o segundo diedro a parede fica do lado direito. Diedro de 35m onde fazer uma parada em móvel é obrigatória e tranqüila em um buraco na parede, uma bolha onde dá pra sentar tranqüilo. Neste ponto tem que deixar uma corda fixa, que sai da P2 passa pela P3 e acaba na P4, para conseguir voltar para as paradas no rapel. Mais 25m de conquista achamos um platô perfeito para o bivaque. Todo esse trecho foi conquistado debaixo de chuva forte, mas pela parede ser negativa, nos 125m de via que conquistamos até o platô, a chuva passava longe.
Iniciamos a tração das cargas já no início da noite, meia hora depois, já escuro, os moradores ao pé da montanha acenavam com lanternas e gritos querendo saber o que estava acontecendo, o que estávamos fazendo na parede, quem são esses malucos. E os feches de luzes dos moradores durou um bom tempo, curiosos com o sobe e desce de luzes no meio da parede até as 21h00. O platô é perfeito para um pernoite, dormiram duas pessoas no chão e uma em rede, protegidos da chuva que insistiu durante a noite. O dia amanheceu com o tempo bom, algumas nuvens baixas nos cânions e o sol dando o ar da graça uma vez ou outra.
A sexta enfiada, na saída do platô, era o que ia dar a direção da via. Todo o trecho anterior foi seguindo fendas óbvias até o platô, mas nesse trecho as fendas acabaram e deu lugar a um trepa-mato onde teríamos que escolher por onde continuar, e foi pela direita, em direção a outro platô confortável. Faltava pouco para chegar no cume, mas tínhamos algumas opções para continuar, nenhuma delas muito agradável, escolhemos chegar no diedro da direita, um trecho de uns 15m sem fendas prejudicava a progressão, pensamos em mais um artificial, subimos 4m em livre e batemos o 1º pino da via fora do trecho em artificial. Neste momento foi visto a possibilidade de mandar os movimentos em livre e proteger em uma pequena laca pra ver o que tinha mais pra cima. Movimentos difíceis, umas quedas e atingimos a laca que entrou uma peça bem pequena, este é outro trecho com um arenito ruim, não sei até quanto ele suporta de queda, esses é um daqueles trechos onde cair não é uma boa opção e em que cair não é muito difícil. Outro buraco avistado, mais alguns metros de progressão, outra peça colocada e no descanso a peça quase saiu, torcendo completamente, quebrando a fenda. Ainda não sabemos o que pode acontecer em uma queda neste trecho, se as peças sacarem é um E4, caindo no platô 15m abaixo, se nada sacar é um E1. Passado esse trecho ruim, iniciava-se um diedro que foi mandado em artificial, às colocações não foram muito boas e a fenda estava suja. Depois de 30m de enfiada chegamos a outro platô, agora já estávamos com a mão no cume, um trecho muito bonito com um arenito fragmentado e várias fendas com movimentos fáceis. Uma chaminé, e um bloco de mais de 1m escorrega e prensa o guia no meio da chaminé deixando quase sem movimentos. Na hora, nos segundos que passamos, muita coisa passou pela cabeça, e um resgate não estava fora dos pensamentos. Mas um resgate naquele lugar, a 5m do cume, conquistando uma via onde não existiam informações alguma, nenhum resgatista pronto para uma ação daquele porte na região, com alguém preso em uma chaminé por uma pedra... Esse é um momento parecido com aqueles que, cair é a última opção. Mas por sorte o bloco partiu em dois, uma das partes passou ao nosso lado destruindo tudo onde passava e a outra ainda estava nas mãos do guia que conseguiu soltar para dentro da chaminé. Depois do susto 5m acima foi atingido o cume do Paredón com 210m de via toda em arenito e com proteções em móvel predominando toda a linha.



Sugerimos a graduação da via de D5 7 a (VIIb/ A0) E3. Mas todas as graduações são sugeridas e precisam de algumas repetições para concretizar. Uma dupla escalando muito bem e entrosada pode repetir a via em um dia, mas o rapel se torna muito perigoso a noite, a base da via não é boa para pernoitar, descer e subir a trilha a noite se torna muito perigoso pelos trechos expostos que ela tem.
Para o acesso da parede é necessário 2h de trilha pesada. Aproveite, escale com tempo e aproveite o visual de uma montanha testemunho de frente para o Vale do São Pedro.
Ainda não temos o conhecimento de uma via em arenito maior que essa no Brasil.
Essa conquista teve o apoio da Montanha Equipamentos e Sapo Agarras.
Os conquistadores foram; Filipe Ronchi, Lindomar (Sapo) e Renato Ronchi.
Agradecemos ao apoio da Aline e Fernanda que acompanharam de luneta toda empreitada e nos esperaram de braços abertos até horas da noite quando chegamos e a Su que ficou na torcida.
 

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