Escalando a Torre Inclinada

Cristian Yoshioka, SP

Em setembro fui junto com o Eliseu Frechou para a Califórnia para conhecer e escalar no famoso parque de Yosemite, para alguns o parque é visto como a Meca da escalada em rocha. E com razão, pois o lugar é absurdamente bonito, com montanhas que hipnotizam qualquer escalador.  E só isso já valeria as horas intermináveis do vôo de São Paulo a São Francisco.

Leaning Tower 

Saímos do Brasil com a idéia de escalarmos o Monte Whitney, a montanha mais alta continental dos Estados Unidos, e também a Leaning Tower, montanha mais inclinada dos Estados Unidos.

Chegando em São Francisco, fomos direto para Berkeley buscar parte do equipamento comprado para a nossa expedição, e só depois partimos rumo ao parque.

Na chegada a Yosemite, ainda com o corpo um pouco inchado devido ao vôo, passamos pelas montanhas que são o cartão de visitas do parque como o famoso El Capitan, o Half Dome, as Catedrais e claro, a Leaning Tower. De longe não se tem a noção exata do quanto ela realmente é inclinada, e como tudo no parque é muito grande, perde-se também a referência de tamanho.

Com tudo pronto, só tínhamos que esperar o dia seguinte para conseguirmos a permissão para ficarmos no acampamento 4 e assim partirmos na outra manhã para a Leaning Tower, fácil, não é? Nem tanto, enquanto estávamos na fila para conseguirmos a tal permissão, o Eliseu bateu o olho na previsão do tempo e... a previsão era de chuva para pelo menos os próximos 2 dias. Em questão de segundos a experiência do Eliseu, quem já estava pela oitava vez no parque, decidiu mudar os planos e seguirmos para o Whitney para tentarmos uma melhor sorte por lá. Chegando na cidade de Mammoth Lakes, em Sierra Nevada fomos direto ao Visitor Center, onde tivemos a péssima notícia de que a previsão do tempo também não era das mais animadoras. Mesmo assim, decidimos subir e acampar em Lone Pine  para no dia seguinte tocarmos rumo ao Whitney. Acordamos bem cedo para fazermos a trilha de mais de 6 horas até o Monte Whitney, o tempo não era dos mais agradáveis, porém seguimos para o nosso frio objetivo. Duas horas de pirambeira depois ... a neve que era o nosso maior receio deu o ar da graça, e isso nos fez abortar a caminhada e conseqüentemente a ida ao Whitney. Essa foi uma decisão bastante dura de ser tomada, vocês não fazem idéia do quanto é frustrante dar meia volta depois de ter passado por muitas horas de treino, tanto no ginásio, como em São Bento, estar preparado para alcançar um objetivo e por motivos que fogem do nosso controle ter que desistir. Porém, mais uma vez a experiência falou mais alto e retornamos. A caminhada de volta foi mais longa e o silêncio era a maior prova de que os dois estavam chateados com a situação, no entanto, sabíamos que não havia o que fazer. Retornando ao acampamento, arrumamos tudo e tocamos de volta para Yosemite. Com isso já estávamos atrasados com nossa programação pra tentarmos as duas montanhas, assim, a decisão foi de escolher qual seria a mais importante e torcer para o tempo ajudar.

Todos os escaladores já passaram por essa situação de não poder escalar em função das más condições do tempo, mas quando se está tão longe de casa, fica muito mais difícil aceitar isso, pode ter certeza.

A torre inclinada

De volta ao vale, a previsão ainda não havia melhorado tanto, porém no domingo decidimos entrar na Leaning Tower e fixar a primeira enfiada. Ao chegar à base da via, ainda estávamos preocupados com a previsão do tempo, e eu, mais ainda porque não acreditava que finalmente iria começar a escalada de meu primeiro “big wall”. Na verdade, não sabia se estava torcendo para chover e eu não entrar na via, pois a tensão estava fo... ou que o tempo se firmasse e daí iria logo por a prova todo o treino feito no Brasil. A primeira impressão foi aterrorizante, inesquecível, mas valeu cada gota de suor.

A primeira enfiada já começava bem do alto, isso foi um dos fatores de tensão para mim, pois além de estar preste a entrar em um paredão gigante, a base da primeira cordada já estava a aproximadamente 200m do solo.

Então, conforme planejado, pude guiar a primeira enfiada no domingo e após fixar a corda, voltamos para o acampamento para tentar dormir e iniciarmos efetivamente a escalada na segunda-feira. Acordamos às 5 da manhã, aliás, estava muito frio, e tomamos café rapidamente para começarmos a trilha até a Leaning, onde parte do nosso equipo e a corda já haviam ficado do dia anterior. Após checarmos todo o equipo, o Eliseu jumareou até o início da segunda enfiada, puxou os haul-bags e me autorizou a fazer o mesmo. Aí foi um dos piores (ou melhores) e mais marcantes momentos da escalada para mim. Como a montanha é muito inclinada, assim que soltei os haul-bags para que o Eliseu pudesse içá-los, estes foram para o meio do vale, a sensação era de que eles iriam se soltar e perderíamos todo o equipo. Como se isso não bastasse, depois dos bags, era minha vez. Assim que me soltei da base, como não poderia ser diferente, fui lançado também para o meio do vale, e lá estava eu, pendulando num vazio absurdo. Para os que já fizeram o rapel das Prateleiras em Itatiaia, pode piorar aquela sensação de vazio umas 10x e acho que foi isso que senti na hora. Um detalhe, no dia anterior, junto com nossa corda estava também a corda de Herr Wurzer, um senhor alemão de 63 anos que adora fazer big walls. O cara é um figuraça e um exemplo de vida para nós que somos mais jovens. Pois bem, o Eliseu me aconselhou a passar uma fita na corda do nosso amigo alemão para que eu não pendulasse tanto para o meio do vale, nem preciso falar que me esqueci de fazer isso, né? E por isso acabei fazendo um dos vôos mais alucinantes da minha vida. Ainda na segunda-feira o Eliseu guiou mais três enfiadas, duas para chegarmos ao platô Ahwanhee Ledge e uma terceira para adiantarmos o trabalho para o dia seguinte. Completamos os trabalhos do primeiro dia ainda com sol e tivemos algumas horas para aproveitarmos a bela vista do platô, após carregarmos apenas as coisas necessárias para se passar a noite no platô. Neste lugar não caberiam mais de 3 pessoas “confortavelmente” instaladas, logo, “sobrou” espaço. Bivaque

Durante a noite, pudemos ver outros escaladores em outras paredes próximas, na verdade, conseguíamos ver apenas a luz de suas headlamps. Isso também era um fato corriqueiro no parque, muitos turistas saiam à noite para ver os escaladores pendurados nas mais diversas vias. O segundo dia também começou muito cedo, acordamos novamente às 5 da manhã para que pudéssemos tomar café da manhã ainda com auxílio de nossas headlamps, desmontassemos o acampamento e assim que o dia nascesse, estaríamos prontos para começar mais um dia de escalada. Dito e feito, assim que o sol apareceu, nós já estávamos jumareando mais uma enfiada e agora faltariam mais duas longas. Pela manhã o sol não batia na face em que escalávamos, então, o frio era de matar, mesmo com 3 peles de roupa mais o corta-vento, ainda sentíamos frio. No segundo dia, o corpo já está mais dolorido e o que eu mais queria era acabar logo com aquela tortura. Isso é uma coisa muito engraçada porque eu queria mesmo terminar logo a via, ao mesmo tempo, estava em transe curtindo a via mais incrível da minha vida. E foi assim durante grande parte do dia, parado dando segue num frio absurdo, e depois calor quando saia limpando a via até chegar no Eliseu. Na minha opinião, a parte mais difícil da via foi uma das enfiadas no segundo dia. Essa enfiada tinha uma passagem por um teto e depois ainda continuava formando um “V” deitado, essa disposição da enfiada dificultava minha vida para limpar a via, algumas vezes dava vontade de deixar para trás o equipo na via de tão mala que era sacar as peças. Quando eu já estava com o corpo no limite, completamos a via, pouco após as 2 horas da tarde. E apesar de todo cansaço, a sensação de dever cumprido foi a grande compensação por todo o treino e dedicação. Mas ainda tínhamos mais umas 4 horas de rapel por outra parede para chegarmos ao chão, e só assim a via foi realmente concluída.

o teto da última enfiadaA via foi realmente alucinante, e certamente a mais difícil que fiz até agora. Desci da Leaning Tower não apenas com o psicológico melhor para encarar outras vias, mas também com a prova de que todo o treinamento vale a pena. E nesse ponto eu tive o privilégio de ter sido treinado por duas feras da escalada: André “Belê” Berezoski e Eliseu Frechou, cada um em sua especialidade me prepararam para que eu completasse a via com o menor sofrimento possível. E durante a via, a confiança e paciência do Eliseu foram extremamente importantes para o sucesso dessa escalada. À minha família e aos meus amigos que me incentivaram e se preocuparam também meu muito obrigado. E no próximo ano com certeza volto para fazer mais um big wall no Yosemite Valley.

Veja o filme desta escalada no site www.planetaexpn.com.br . Na Busca, procure por "escalada" ou "leaning tower"

 

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