Jalapão
Alberto Ortenblad, SP
Durante cinco dias, visitei terras e águas do Jalapão, uma enorme e
despovoada região de cerrado no centro do Brasil. Ela é atravessada por
surpreendentes serras retilíneas e dotada de um mosaico de várzeas
verdejantes, espalhadas entre campos ocres de árvores retorcidas. Tem
uma beleza seca e rude, que impressiona por seus grandes panoramas.

Tocantins, Palmas e o Jalapão
Devido à sua posição central na geografia do Brasil, chegar ao Jalapão é
sempre longe, a menos que você more lá. De onde quer que você venha,
mesmo que das capitais mais próximas de Goiânia e Brasília, terá de
rodar de mil a dois mil km. As duas principais rodovias de acesso são a
BR-020 e a BR-153.
Embora asfaltadas, essas são estradas irregulares, que alternam trechos
bons, ruins e em obras – e que apresentam ainda dois problemas graves:
traçados um tanto antigos para as velocidades atuais e caminhões lentos,
pesados e agressivos. Vindo de São Paulo, pude observar a evolução das
paisagens, desde as terras de cultura do Sudeste até o cerrado fraco do
Centro-Oeste.
O Jalapão fica em Tocantins, o mais recente Estado da Federação. As
populações do norte de Goiás consideravam-se esquecidas pela
administração e conseguiram afinal separar-se. O novo Estado surgiu como
uma enorme área triangular, tendo Goiás a sul, Bahia e Piauí a leste e
Maranhão e Pará a norte. Suas terras pertencem às bacias do Araguaia, do
Tocantins e do São Francisco, este sendo o único dos três que não corre
diretamente pela região.
A capital Palmas teve seu nome dado em homenagem ao local onde se
iniciou o movimento separatista, dois séculos atrás. Será uma surpresa
conhecê-la, pois é uma cidade planejada, com um sistema de quadras
semelhante ao de Brasília – ou seja, propício para que você se perca a
uma esquina do local procurado.
Palmas foi instalada no primeiro dia de 1990 e teve um rápido
crescimento. Chegou a passar de 200 mil habitantes mas, com o fim de
obras locais e regionais, sua população foi reduzida para 180 mil.
Fica numa grande área de cerrados, que se estendem desde Goiás e que
assumem gradualmente um aspecto mais rústico e árido, à medida que
avançam para o norte.
O Acesso e as Vilas
O Jalapão fica a leste de Palmas e sua porta de entrada é a vila de
Ponte Alta, onde terminam os 150 km de asfalto. De lá, serão outro tanto
em terra, a uma velocidade um tanto penosa, dada a presença de muitos
areiões. A menos que você vá ficar nesta vila ou tenha acordado muito
cedo, programe o dia todo para a viagem ao seu destino.
No meu caso, fiquei nas instalações da Korubo, às margens do Rio Novo,
no extremo sul do Parque Estadual.
Embora você possa pousar em outras vilas, como Mateiros ou São Felix,
esta me pareceu de fato a melhor logística. A Korubo surgiu nos inícios
dos anos 2000, pelo esforço do paulista Luciano Cohen, ao implantar um
simpático sistema de tendas, que permitem um alojamento rústico e
confortável, num belo local a beira rio.
Existem quatro principais vilas na região: a maior delas é Ponte Alta,
no limite sudoeste da área. Mas o coração da região fica em Mateiros, a
150 km de distância, que é também o centro do artesanato em capim
dourado e seda de buriti. A norte e oeste de Mateiros estão São Felix e
Acordo Novo, que não pude visitar. A população total da região não
ultrapassa 30 mil pessoas, numa das menores densidades demográficas do
Brasil.
História e Aspecto
Geral
O Jalapão era originariamente habitado pelos índios acroás, que foram
extintos no século XVIII. No século seguinte, foi ocupado esparsamente
por vaqueiros nordestinos vindos do Nordeste. Além das pastagens, o
látex extraído das mangabeiras atraiu uma nova leva de habitantes
durante o século XX. Com a construção de estradas ligando suas
principais vilas na década de 80, a infra-estrutura urbana melhorou,
instalaram-se grandes fazendas e começou o eco-turismo.
O Jalapão é, até certo ponto, uma região de transição para dois outros
grandes biomas: a caatinga do Nordeste e a floresta amazônica do Norte.
Ele é, de fato, uma região especial. Não tem propriamente uma beleza
espetacular. Mas é impressionante por sua natureza vasta e rude. Devido
às grandes distâncias e à topografia plana, possui panoramas estáveis e
até monótonos. Sobre seus solos arenosos e áridos viceja uma vegetação
sofrida, pequena e esparsa, embora muito variada. O clima é quente e
seco, com chuvas torrenciais infrequentes no verão e uma longa estação
seca no inverno.
Os percursos são longos e árduos, o Jalapão não é uma região onde você
possa praticar travessias. Nele os deslocamentos exigem veículos
apropriados. A sinalização é escassa e irregular, de acordo com o
tradicional descaso dos órgãos ambientais. A região é deserta, as vilas
são distantes, pequenas e precárias. Prepare-se para rodar em média 50
km entre dois pontos de interesse. Portanto, não planeje mais de dois ou
três em cada dia.
As Unidades de
Conservação
Embora de forma imprecisa, devido à inexistência de mapas, diz-se que o
Jalapão ocupa 34 mil km2, uma área inacreditavelmente grande –
ultrapassa a soma dos nossos dois maiores Parques Nacionais. Corresponde
a um retângulo inclinado, cujo lado maior corre no sentido nordeste.
Calculo suas dimensões aproximadas como 250 km por 140 km.
Dentro deste retângulo, existem duas áreas enormes, o Parque Nacional
das Nascentes do Parnaíba, que fica grandemente no Piauí, e uma Estação
Ecológica, esta inteiramente em Tocantins, além de quatro APAS e,
finalmente, o Parque Estadual do Jalapão. Todas estas unidades de
conservação foram constituídas recentemente e ainda não foram
desapropriadas. O mapa anexo procura dar uma idéia.
O avanço das culturas de exportação no Centro-Oeste está rapidamente
desmembrando nossos cerrados em áreas cada vez mais isoladas. Em
resposta a isto, os ambientalistas acreditam que é cada vez mais
necessário preservar grandes áreas naturais contínuas. Esta foi uma das
razões para a criação de vastos corredores ecológicos como o do Jalapão,
onde a soma dos dois Parques com o da Estação chega a 16 mil km2.
Visitei, ou melhor, percorri, uma pequena fração da área total, de forma
que meus comentários serão um tanto limitados. Conversei com Mauro
Fontoura, nativo da região, e ele relatou-me que o Parque Nacional do
Parnaíba tem uma natureza surpreendente, com amplas veredas a leste da
Serra das Mangabeiras. A Estação Ecológica destina-se à pesquisa, não ao
turismo, não sendo portanto aberta à visitação. As APAS pareceram-me
basicamente fazendas de gado de criação extensiva.
Os Panoramas do
Parque
O Parque Estadual não é tão grande, possui 158 mil ha, como se fosse um
retângulo vertical de lados de 50 km por 30 km. É ocupado por quatro
tipos de paisagens: os platôs planos das serras, suas encostas
verdejantes que descem até as áreas planas de cerrado e, por fim, as
veredas úmidas.
Existe um sistema de serras ou chapadões aproximadamente paralelos, que
correm no sentido sul-norte, como acontece com os grandes rios da
região, o Araguaia, o Tocantins e o Parnaíba, que fluem quase paralelos
entre si. A principal serra é a do Espírito Santo, que aparece
impressionantemente retilínea por cerca de 30 km. Sua extremidade é
belamente decorada pela forma cônica do Morro do Saca Trapo. As outras
serras são a da Jalapinha e do Porco, com altitude de 800 m. O ponto
culminante está na Estação Ecológica, é o Morro do Fumo, com 870 m e
interessantes perfis em arenito – seu acesso, porém, é vedado.
As encostas são recobertas por vegetação arbórea, em alguns casos
sujeitas à erosão eólica. Este foi o processo formador das interessantes
dunas do Jalapão, onde você poderá apreciar um belo por do sol. Mas a
grande extensão do Parque é composta pelas áreas planas de cerrado, que
lhe parecerão inicialmente monótonas. Com o tempo, você perceberá que
existem diferenças, desde o cerrado mais alto, úmido e verde de Mateiros
até as formações mais fechadas e secas no rumo de Ponte Alta e os
cerrados de campo limpo entre essas duas áreas, onde os arbustos são na
verdade árvores anãs.
Mas a visão mais cativante é a das veredas, que são várzeas repletas de
buritis, onde existem grandes aqüíferos subterrâneos. Este panorama
verdejante contrasta com o sofrido cerrado ao redor. Estranhamente, as
veredas não estão em depressões, de forma que parecem um mosaico de
fartura intercalado com a palha dos campos secos.
Geologia, Flora e
Fauna
A origem geológica do Jalapão esta ligada ao antiqüíssimo rebaixamento
da região pela invasão do mar, que formou o Planalto Central brasileiro.
No Período Cretáceo, o desgaste da erosão pluvial e eólica rebaixou o
planalto sedimentar, formando os chapadões planos, constituídos por
arenitos mais duros. Eles são os testemunhos remanescentes da antiga
topografia mais elevada da região.
James Wells, um dos raros visitantes que percorreu a região em fins do
século XVIII, escreveu sobre essas formações que “o cume desta larga e
longa chapada é uma relíquia de um grande platô que talvez se estendesse
em alguma época desde os tabuleiros da Bahia até os planaltos de Goiás”.
A flora, apesar de sofrida, é exuberante. Existe uma grande variedade de
árvores, como a sucupira ou o ipê, o angelim e o pequi. Os arbustos são
também variados, com samambaias e jalapas, que são os tubérculos
floridos que deram nome à região. A principal gramínea é o capim
agreste, de difícil digestão para o gado. Mas a mais famosa é o capim
dourado, matéria prima de lindo artesanato. Apesar de ter estado no auge
da seca, pude encontrar discretas flores pelos caminhos, desde os vivos
amarelos da São João e vermelhos da calandra, até os delicados brancos
das sempre vivas, roxos das vassourinhas e lilás dos faveiros.
A fauna é até certo ponto diferenciada, conforme cada uma das paisagens.
Na vegetação baixa e esparsa das serras será mais fácil encontrar emas e
veados. Nas encostas, você poderá enxergar araras, tucanos e macacos. Os
mamíferos, como tamanduás, tatus, raposas e lobos, costumam atravessar
os cerrados baixos. Já o ambiente úmido das veredas é adequado às antas,
pacas, capivaras e garças. E, em qualquer desses lugares, você verá com
freqüência sob o azul do céu o lento vôo dos gaviões carcará.
Os rios da região são, principalmente, formadores do Rio do Sono,
tributário do Tocantins. O Rios Novo e das Balsas são importantes
afluentes do primeiro. São cursos muito bonitos, com águas límpidas e
encachoeiradas, dotados de pequenas praias paradisíacas de fina areia
branca.
Atrações e Cuidados
Já comentei sobre algumas das atrações principais do Jalapão, aquelas
nas proximidades da Serra do Espírito Santo. As demais são basicamente
cachoeiras, a principal das quais é a linda Cachoeira da Velha, no
Município de Mateiros, com a forma de uma ferradura.
Existem ainda interessantes fervedouros e praias fluviais nos Rios Novo,
Sono e Soninho. O primeiro destes é considerado o mais bonito e suas
águas permitem um rafting de dois dias ao longo de 60 km até a Cachoeira
da Velha.
Uma atração de outra natureza é o artesanato em capim dourado, que dizem
ter se iniciado com os índios do Araguaia. Foi com Dona Miúda, habitante
do quilombo de Mumbuca, que a prática se popularizou dez anos atrás,
passando de objetos utilitários para decorativos. Os artefatos são
feitos com a haste do capim e costurados com a seda do buriti.
Devido às estradas precárias, só é aconselhável visitar o Jalapão no
período seco, de maio a setembro. No meu caso, lá estive no fim de um
inverno rigoroso, de forma que encontrei uma natureza muito castigada
pela seca. Por outro lado, como a temperatura média da região é de 30º,
imagine só o calor que teria encontrado no verão!
Além do calor, prepare-se para enfrentar as picadas dos insetos, das
quais nem vitaminas ou repelentes poderão realmente protegê-lo. Além de
bom preparo físico, não deixe de levar muita paciência, para enfrentar
os demorados percursos nas estradas. E, se for de avião, reserve pelo
menos uma semana para sua viagem.
O Futuro do Jalapão
Só queria acrescentar algumas impressões sobre o futuro do Jalapão como
destino de eco-turismo. Minha opinião é pessimista, devido
principalmente ao trabalho que (não) pude observar dos órgãos
ambientais, o Ibama federal e a Naturatins estadual.
Para começar, a enorme extensão da Estação Ecológica permanecerá fechada
ao turismo, por ser área dedicada à pesquisa. Locais de interesse como o
Morro do Fumo não poderão ser visitados. E o pouco que pude conhecer da
pesquisa até agora realizada pareceu-me simplesmente superficial.
Quanto ao Parque Estadual, conheci estradas um tanto precárias, ausência
de boa sinalização, escritórios desocupados e pouca fiscalização -
enfim, o desinteresse de sempre com que são tratados nossos parques.
Some-se a isto a ausência de desapropriação das terras, que gera
situações de conflito com seus ocupantes. Conhecendo outros parques
brasileiros, receio que estes problemas irão continuar por muito tempo –
eles existem até hoje no primeiro de nossos parques, o de Itatiaia!
O Jalapão é muito distante, a infra-estrutura é precária, as atrações
são afastadas entre si, a natureza não tem uma beleza fácil e as
extensões são monótonas – mas, mesmo assim, vale a pena visitar esse
vasto e estranho deserto.
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