por Alessandra Arriada - RS

Collete

Desfrutar a vida significa para muitos ter um dia a dia normal, sentar com a família para almoçar e ter desafios profissionais interessantes. Para outros ter um conta bancária gorda, um trabalho e uma família legal sem complicações. Ou ainda simplesmente ter um dinheiro no final do mês e uma praia para tomar uma cerveja com tranquilidade de vez em quando. Tranquilidade, segurança, felicidade, são conceitos. Subjetivos, individuais, conceitos.
Mas muitas pessoas percebem em um certo momento de sua vida que precisam apreciar tudo de uma forma diferente. Que precisam se misturar, vivenciando e aprendendo tudo de mais perto. Que não basta ouvir falar, que precisam ir até lá, se despir de todas as ideias e costumes e experimentar entendimentos únicos de como é estar naquele lugar, com aquelas pessoas e daquele jeito. E para isso, é preciso viajar.
Quem gosta da montanha indiscutivelmente gosta dessa satisfação. A de buscar explorar e conhecer infinitas possibilidades. A de apreciar o novo, se maravilhar diante de um lugar incrível de escalada e observar quem mora no local, como escala, o que usa, o que pensa e fala, conhecer a cultura e levar sempre um pouco para si deixando mais ainda para quem fica. A troca, o desafio de se tornar mais um no meio de tanta gente, de estar sem ninguém conhecido por perto e de estar aprendendo tudo novo.
Estar em um novo lugar significa começar de novo, se testar de novo, seja em uma nova via, seja em uma nova situação.
E há quem consiga e quem escolha viver assim, dia após dia. Seja por facilidades econômicas, situação cultural, patrocinadores, estilo de vida, determinação, não importa. Há quem largue tudo e opte pela busca do simples. Escalar todos os dias em lugares diferentes, com pessoas diferentes, sem casa, sem supermercado no fim do mês, sem décimo terceiro nem conta de luz.
O casal de escaladores Joey Kinder e Colette McInerney, americanos, ele de New Hampshire e ela de Nashiville, escolheram ‘the climbing way of life’ e vivem na estrada em busca dos melhores spots, melhores imagens e melhores momentos de suas vidas.Ambos patrocinados por Fiveten, Gregory Packs, Petz, Sterling Ropes, Verve, Metrolius, Nutriex e outros, figuram entre os melhores escaladores da atualidade, dividindo seus dias com Dave Graham e Luke Parady.
Joey começou a escalar com 13 anos em Estes Park quando viajava com a família, não parando até seu 5.14d. Patrocinado há mais de dez anos, tornou-se atleta com 20, e vive viajando há 5. Os amigos e colegas sempre o definiram como obcecado e extremamente motivado e, além de ótimo escalador, se tornou artista graduado na Escola de Arte de Maine, com especialização em pintura. Mas além da pintura o que realmente lhe impressiona são as imagens, fotografias e vídeos. Joey produz pequenos filmes de suas incursões pelo mundo e ele e sua namorada editam maravilhosas fotos e textos onde vão relatando seus ideais e experiências e os locais de escalada por onde passam em seus sites pessoais.
Colette teve uma infância eclética de pais pouco usuais que cedo a fizeram imaginar o quanto uma vida pode ser aproveitada, assistindo a shows de rock e fazendo aulas de yôga. Mas foi ao viajar para a Europa para visitar parte de sua família que ficou apaixonada pelo estilo de vida livre e confirmou a necessidade de se misturar ao invés de tentar se ajustar ao diferente. Colette tem 29 anos mas parece estar no auge de seu momento como escaladora, participando de campeonatos, viajando e estando entre as melhores atletas com Daila Ojeda, Jennifer Vennon, Nina Caprez, Charlote Duriff e todas as outras, estando no time da Petzl e Fiveten.
Eles se conheceram escalando, compraram um carro e foram conhecer países como Alemanha, França, Espanha, Áustria e Suécia. Entre os compromissos com os patrocinadores, eles fecham a mochila, abrem a barraca e estacionam em um outro lugar. Dali ficam alguns dias, registram tudo, trabalham para algumas marcas de esportes outdoor e viajam novamente. No caminho vão se juntando com outros escaladores ou globetrotters, mochileiros ao redor do mundo, como o próprio Dave Graham, Emily Harrington e Sasha DiGiuliam. Ou ainda partem de um festival na China diretamente para um casa alugada em Red River George com um grupo de amigos para escalar e descansar full-time. Jogam dominó, escrevem no computador, conversam, esperam a chuva passar e..adivinhem...escalam.

Joey e Collete

Para quem acha arriscado viver de maneira tão intensa porém instável, Joey diz que não vê outra maneira de seguir aquilo que acredita a não ser investir inteiramente no que ele respira e vive que é a escalada, e que, dessa forma, não há como não dar certo. Vivendo um mês em cada lugar ele diz ter como objetivo escalar o maior número de vias e visitar o maior número de lugares humanamente possíveis e que se considera uma pessoa extremamente afortunada por conseguir alcançar esse objetivo. Para ele, não há a menor possibilidade de enjoar desse estilo de vida, ainda mais tendo Colette como companheira inseparável nessa vida de esforço.
Para cada realidade, há uma possibilidade, o estilo e a maneira como cada um decide levar a sua vida é o que menos importa. Mas saber que há algo do lado de fora, saber que há um mundo a ser explorado cheio de ideias bem diferentes da nossa talvez nos torne pessoas mais conscientes de nossas próprias limitações, mais humildes. E vez ou outra explorar este mundo, desapegando dos problemas terrenos, das contas, do trabalho e demais emoções, ou da mesma pedra que a gente vai todo final de semana, nos torna com certeza escaladores melhores, se não em graduação, em postura, em amizade, em respeito, em satisfação. Nos ensina a aprender com o novo, e não a ter medo dele. E nos deixa além da experiência, muita história boa para contar.

 
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