Espanha

Sílvia Marcon, RS

Como escaladora esportiva sempre ouvi falar e assisti vídeos de escaladas na Espanha, mas ainda assim era difícil imaginar o quanto este país oferece na modalidade. Sabia da existência de inúmeros sítios classificados com 6 estrelas, e com o grande diferencial de ter escalada inclusive no rigoroso inverno europeu. Com tanta rocha de qualidade e pouco tempo, escolher onde escalar na Espanha foi uma tarefa difícil, mas por representarem escolas espanholas com estilos diferentes de escalada, os sítios eleitos nessa trip foram Siurana, na Cataluña e Rodellar, em Aragòn.

Em um carro alugado em Barcelona, Thiago e eu fomos em direção ao sul costeando o litoral do Mediterrâneo. Siurana fica apenas 1h e 40 minutos. É um pueblo com características medievais, 180 habitantes e 10 km quadrados. Localizada em cima de penhascos, muitas construções ainda permanecem intactas, mais ruínas podem ser vistas em volta da aldeia. Porém Siurana não faz parte apenas da história local, também entrou na história da escalada esportiva.

Siurana

A escalada técnica em Siurana iniciou no final dos anos 50 com uma escalada histórica de 90m, V+ em diedro. A partir de então se desenvolveu no estilo alpino até o final dos 80, quando a escalada esportiva tornou-se popular na Europa e os conquistadores rapidamente viram o enorme potencial da área. Setores como Can Gans di Onis e La Trona  receberam os primeiros bolts de expansão da península.

Nos anos 90 tornou um dos points mais top no mundo da escalada esportiva, perdendo pouco a pouco para outras áreas mais recentes e com maior divulgação na mídia especializada. A graduação das vias é rigorosa e os escaladores locais costumam dizer que “o grau que você escalar em Siurana, escala no mundo inteiro!”. Não é à toa, no setor El Pati localiza-se a duríssima La Rambla, 9A+(12a Br) com 40 metros e 17 proteções, aberta por Alex Huber.

Hoje, com apenas 30% de seu potencial esportivo explorado, Siurana possui 900 vias (V a 9º Fr) de altíssima qualidade, levemente negativas e com uma altura média de 30 metros, distribuídas em 40 setores de placas de calcário que alternam vermelho, cinza e amarelo. Escaladores europeus freqüentam o sítio nos meses de inverno, pois devido ao clima é um dos poucos locais na Europa que podem escalar em rocha. Chegamos em setembro, final do verão europeu e foi possível escalar muito, alternando setores (manhã-sombra/tarde-sombra).

Os setores se distribuem ao longo de uma estrada sinuosa de aproximadamente 6km, que une o povoado de Cornudella de Montsant a vila de Siurana. Não há ônibus que faça esse trajeto e sem carro o deslocamento entre os setores é mais difícil, apesar das aproximações serem feitas normalmente por trilhas curtas e bem preservadas. Outro empecilho em estar sem um veículo são os mantimentos. Há mercadinhos somente em Cornudella, mas quem resolver ir às compras deve estar atento aos horários da siesta!

 

Rodellar

Depois de escaladas perfeitas, sol e céu azul e de volta a Barcelona, o próximo destino: Rodellar. Muito perto da cidade surge junto à rodovia um imenso monstro de conglomerado: Montserrat, com mais de 1500 vias de escalada de todas as modalidades. É muita rocha...precisa-se de tempo e nessa viagem nossa meta era outra.

Para chegar em Rodellar, na Sierra de Guará, ainda foi preciso rodar pela autopista mais algumas horas. De Barcelona, sem carro, seria necessário pegar ônibus até as cidades de Barbastro ou Huesca e depois uma carona ou taxi, pois não há nenhum meio de transporte público para acessar Rodellar. Os escaladores locais utilizam as furgos: vans, adaptadas para dormir e algumas com cozinha e até banho. Um luxo necessário e econômico, já que podem ficar estacionadas em qualquer lugar, sem perigos e de graça.

Apesar de já existirem vias de escalada na região desde os anos 70, Rodellar foi esportivamente “descoberto” pelos franceses após os 80 e tornou-se referência na escalada esportiva com a abertura da via Maldita Codicia ,7c+(9b Br). Na época graduada como oitavo (Fr), é hoje não é uma via tão famosa ou tão dura assim, mas foi considerado um marco, pois ao contrário das demais, equipadas com spits, essa foi equipada com parabolts e percorria um potente negativo, grande mudança na escalada mundial daquela época, constituída por placas e negativos leves – estilo típico da escalada em Siurana, por exemplo. 

Atualmente é um dos mais famosos sítios esportivos da Europa, sendo freqüentado por Sharma, Graham, Dani Andrada, além de inúmeros escaladores menos célebres, mas igualmente bons. Possui umas 300 vias de todos os níveis e tipos e é conhecido pelas vias longas e negativas (desplomes) de até 40 metros, chorreras perfeitas e setores como a Gran Boveda, com dezenas de vias de oitavo grau francês.

Porém, lá se pode escalar 40 metros de placas com regletes ou vias curtas e bolderísticas de teto...enfim, tem pra todos! E o melhor, como os setores se distribuem ao longo de um cânion em cuevas, quando chove pode-se escalar, pois a maioria das vias fica protegida nas cuevas.

Ficamos em: Siurana: Refugio Ciriac Bonet; Cornudella de Monsant: Refugio Climbing Planet ; Rodellar: Camping Mascún

Mais infos comigo, Sílvia: silclimb@hotmail.com

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