Pesquisa em Montanha

por Edson " Du Bois" Struminski , PR

 Edson "Du Bois" Struminski

Tempos atrás um amigo meu, Alexandre Lorenzetto (Sassá), comentou que no desenvolvimento de pesquisa em montanha, como em outros assuntos relacionados com montanha, eu teria de ser um pioneiro, tendo, com isto, de suportar alguns fardos extras. De fato, quando me remeto ao ano de 1989, quando me iniciei de forma sistemática em atividades de pesquisa em montanha, percebo que não havia, realmente, muito o que dizer a respeito de uma identidade relacionada a pesquisas em ambientes montanhosos. Pesquisava-se instabilidade de taludes, Floresta Atlântica, fauna de encostas, erosões, etc.
Evidentemente a atividade de pesquisa em montanha já existe há muito tempo, séculos eu diria, porém a identidade “pesquisador em montanha”, é algo recente, que, ao meu ver, tem relação direta com nossa experiência de montanhismo, um interesse particular, talvez, em permanecer um tempo a mais estudando um ambiente que tanto nos fascina. Existem muitos biólogos, geólogos, etc, que acabam abraçando os temas da natureza em montanhas, porém, quando este profissional tem uma experiência adicional de escalar paredes ou de se embrenhar em locais não usuais em montanhas, é claro que sua pesquisa ganha mais qualidade e sabor.
Na verdade desde muito tempo os pesquisadores, principalmente aqueles que trabalham em áreas naturais, já devem ter percebido vantagens em associar suas atividades com os montanhistas. Como os equipamentos usados pelos montanhistas são leves e resistentes, acabam se tornando o ideal para quem quer que faça alguma pesquisa na natureza, seja subindo até a copa de árvores, seja pesquisando morcegos em uma caverna.
Com isto acredito também que hoje o leque de assuntos pesquisados em montanha é muito variado. Isto acontece porque existem muito mais montanhas sendo acessadas por pesquisadores, novos assuntos em montanhas que requerem atenção e também uma nova geração de pesquisadores/montanhistas disposta a contribuir com seus esforços.
Também existe um número maior de usuários de montanha, de tal forma que este assunto, gente na montanha, se tornou um tema recorrente em trabalhos acadêmicos que eu leio. Então sociólogos, psicólogos, filósofos, encontram também temas fartos para pesquisar quando o tema envolve montanhas.

Espaços para pesquisa

Imagino que, talvez, como disse o Sassá, meu pioneirismo tenha relação com a necessidade de firmar a identidade do “pesquisador montanhista” e de proporcionar espaço para que este pesquisador possa mostrar e valorizar sua atividade, algo que, a meu ver, o diferencia dos demais pesquisadores, pois o ambiente natural da montanha simplesmente gera demandas físicas e psicológicas adicionais que os demais pesquisadores, não se veem obrigados a enfrentar. Por exemplo, um pesquisador que instale uma estação meteorológica em uma montanha terá de enfrentar caminhadas duras para obter o mesmo dado que na cidade ele teria simplesmente consultando a internet.
Como iniciativas recentes para valorizar esta identidade do “pesquisador montanhista”, fomentei a criação de dois espaços importantes para a pesquisa nestes ambientes. O primeiro é um espaço informal, um portal da internet, o www.pesquisaemmontanha.wordpress.com, provavelmente já conhecido por muito leitores do MV. Neste portal são feitos resumos e links para trabalhos técnicos e científicos, mapas, imagens e fotos sobre assuntos relacionados a montanhas. O portal foi desenhado por mim e por Hebert Sato e recebe trabalhos de todos os lugares do Brasil e de docs em espanhol e português de Portugal. Ele irá se ampliando naturalmente e com o passar do tempo deverá ser aperfeiçoado para facilitar a busca dos leitores. Ele está aberto para receber trabalhos e contribuições e já possui alguns milhares de acesso e dowloads de trabalhos.
Outro espaço, porém com caráter formal, do qual participei da criação foi o Grupo de Pesquisa em Montanha junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à UFPR. Este grupo congrega alguns pesquisadores ligados à UFPR ou convidados que desenvolvem pesquisas em montanhas, sendo, portanto, identificados com este ambiente natural. Acredito que com o passar do tempo este grupo de pesquisas poderá fomentar projetos e arrecadar recursos para treinar mais pessoas para desenvolver pesquisas.

Porque das pesquisas
em montanha?

Embora tenha tentado inicialmente (desde 2005) fomentar estes espaços em instituições de montanha (clubes, federações), acabei chegando à conclusão que o perfil de pesquisa se encaixa melhor dentro de instituições científicas tradicionais, como a universidade.
Apesar de não ser muito comum, já ouvi contestações sobre minha propensão a divulgar pesquisas feitas em montanhas em ambientes da internet. Também já li declarações de repúdio a atividades de pesquisadores em montanha, ou mesmo narizes torcidos por ter desenvolvido pesquisas que acabaram, no final, trazendo benefícios direto aos montanhistas (como por exemplo sobre ecologia de trilhas), por desconhecimento das metodologias usadas nas pesquisas. Entendo que suportar este tipo de declaração é um dos fardos de ser pioneiro, pois são comentários que apenas demonstram falta de conhecimento ou mesmo preconceito quanto ao valor da ciência, algo que hoje em dia já não leva a lugar nenhum. Pessoalmente acho que se temos pesquisadores montanhistas, somente temos a ganhar, pois são pessoas sensíveis aos ambientes das montanhas e às necessidades que temos em escalar-las.
Além disso, embora a pesquisa em montanha seja um assunto bastante técnico e nem sempre acessível ou do interesse de muitas pessoas que frequentam montanhas, é evidente que nós, montanhistas, nos beneficiamos diretamente da pesquisa e do desenvolvimento científico e tecnológico. Nosso equipamento deriva de pesquisa contínua, caso contrário ainda estaríamos escalando com cordas de sisal e mosquetões de aço. Se não houvessem pesquisas, estaríamos andando somente em trilhas degradadas. Muitos dos locais onde andamos, aliás, são unidades de conservação que derivam do trabalho de pesquisadores.
Acredito que, na falta de coisa melhor, dependeremos cada vez mais da ciência e da tecnologia para conservar nossas montanhas. O melhor que nós montanhistas faremos será, cada vez mais, tentar colocar esta excelente ferramenta a nosso favor e a favor da conservação das montanhas que tanto amamos, dialogando e apoiando os pesquisadores.


 
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