Diabéticos escalam o Domuyo

Flávio Doce, RJ

Início de janeiro de 2008. Recebo uma mensagem para entrar em contato urgente com Abayubá Rodriguez, um diabético uruguaio radicado há 20 anos em Buenos Aires, aliás, um dos mais conceituados treinadores de triathlon da Argentina. Motivo da chamada: um convite para entrar no projeto Bandera Al Cielo – com diabetes se puede e subir o vulcão Domuyo, ponto mais alto da Patagônia.

Minha história de vida com a diabetes começou há 19 anos, quando fui diagnosticado portador. Nessa época acreditava-se que os diabéticos não poderiam realizar atividades de alta intensidade ou de risco e deveriam apenas fazer caminhadas tranqüilas três vezes por semana. Dei sorte e fui justamente iniciar meu tratamento com um médico que remava contra a maré dizendo que, com os devidos cuidados (vários testes diários de glicose e pequenas doses fracionadas de insulina), se poderia fazer tudo.

Assim como eu, meu médico também tinha uma característica especial: diabético tipo 1 (insulino-dependente) desde os 3 anos de idade. Com isso, usando a si mesmo como primeira cobaia, desenvolveu uma metodologia de tratamento hoje em dia considerada a ideal na prevenção das degenerações que acometem os diabéticos que não monitoram seu tratamento com a devida atenção.

Deixem-me ser muito claro e objetivo: diabético que não se cuida, além de morrer cedo, fica cego, impotente, perde a circulação nas extremidades e com insuficiência renal, sem falar nas complicações cardíacas que se acumulam silenciosamente. Os que se cuidam bem podem fazer tudo o que quiserem, sem qualquer limitação ou incapacidade, e é esse o objetivo do projeto Bandera Al Cielo – com diabetes se puede, idealizado e coordenado pelo também professor de educação física (assim como eu) Abayubá Rodriguez.

Como segunda etapa do projeto (que teve início em 2007 e terminará em 2010, com a subida ao Aconcágua), foi formada uma expedição de diabéticos para subir ao cume do ponto mais alto da Patagônia, conhecido como Techo de la Patagônia, o vulcão Domuyo (4.709 m), na Argentina, com o patrocínio e apoio da ONG Organización Internacional por el Desarollo e da empresa fabricante de medidores de glicose no sangue, Abbott ‑ secção Argentina.

Domingo, dia 13 de janeiro, embarquei num vôo para Buenos Aires, chegando na hora do almoço e descansando algumas horas até entrar em um ônibus que nos levaria a todos: eu, Flávio Doce (Rio de Janeiro), Alexei Caio (São Paulo), Fernando, Abayubá Rodriguez (ambos de Buenos Aires) e mais o guia Jorge González (não diabético, de Rosário – Argentina).

Estavam previstas 17 horas de viagem mas, por conta dos piquetes do proletariado em greve nas estradas, foram 22h até chegar na capital provinciana de Néuquen, cidade com bons recursos oriundos do petróleo. De lá foram mais sete horas até a pequena cidade de Chos Malal, onde chegamos meia-noite. Jantamos e dormimos algumas horas até a saída, de Van, às 9h, em direção ao início da trilha para o primeiro acampamento. São 160 km de distância, em que quase 1/3 é de estrada de chão, até chegar ao que eles, curiosamente, chamam de acampamento base (a 2.450 m de altitude), de onde é hábito colocar a carga mais pesada por conta de burros e caminhar mais leve pelas quatro horas e meia seguintes.

Montadas as barracas do acampamento 1, a 3.000m,  altitude do nosso Pico da Neblina (que subi em 2000), fomos dar uma descansada e preparar a alimentação, afinal já era quase 18 horas. As barracas ficam a 10 metros de um pequeno e verde lago de degelo, alimentado por um filete de água que usamos para beber e cozinhar.

Extasiado pela paisagem maravilhosa das montanhas, tentei convencer meus companheiros a dar um mergulho quando voltássemos do cume, mas ninguém topou. Lá o céu estava muito limpo (em Chos Malal não chove há 1 ano) e o vento cortante. O sol nasce por volta das 7:00 h (a Argentina tinha acabado de entrar em horário de verão) e só se põe depois das 22:30 h. Mesmo protegido do sol, o vento muito gelado é capaz de queimar severamente o rosto e, especialmente, os lábios.

A altitude de 4.700 m é ainda pouca para se exigir dias de aclimatação, porém suficiente para nos dar dores de cabeça e até enjôos, porque vamos subindo e o corpo reclama a progressiva rarefação do oxigênio. Os enjôos para um diabético são muito importantes, já que contabilizamos todas as gramas de carboidratos que ingerimos e ajustamos com as devidas doses de insulina da seguinte forma: basal (liberada lentamente ao longo do dia) e ultra-rápida (para ajuste fino da glicose sangüínea de acordo com a intensidade, duração do exercício e alimentação).

Um diabético bem controlado costuma fazer de 6 a 8 testes de glicose no sangue por dia, tirando uma gota de sangue das pontas dos dedos. O resultado sai em poucos segundos. Durante atividades intensas esses testes podem tranquilamente ultrapassar as 10 por dia.

Preparamo-nos para iniciar o avanço ao acampamento 2, no dia seguinte, às 9h. O caminho é bem íngreme e o solo rochoso completamente fraturado: as morainas. Caminhar sobre essa infinidade de rochas e areia em terreno íngreme é muito desgastante pois a cada passada de um metro de comprimento deslizamos meio metro para baixo. Neste dia saímos dos 3.000m e fomos até 3.800m, onde descansaríamos e experimentaríamos tudo o que fosse necessário para o ataque ao cume.

Ajustamos polainas, crampoon, esvaziamos a mochila do que não seria usado na subida final, preparamos as mais pesadas roupas de frio para encarar vários trechos de vento ainda mais violento.

Se no dia anterior já entendíamos a coerência de chamar a cordilheira onde está localizado o Domuyo de “Cordillera del Viento, neste último fomos ainda mais longe. Um longo corredor na sombra e bastante exposto aos ventos faz com que as mãos, que seguram os inseparáveis bastões, fiquem variando entre dormentes e doloridas de tão geladas. Quando após cerca de duas horas de dura subida pelos cascalhos deslizantes paramos em um ponto protegido do vento, fizemos mais uma medição de glicose, ajuste de alimentação e doses de insulina. Os dedos deram uma aliviada, para dar lugar à dor nos pés de tanto frio (estava com duas meias, a primeira pele, mais três casacos e duas calças sob os impermeáveis).

A parede

Enfim, após quase três horas chegamos na base da parede de gelo: cerca de 300 metros em que usamos os crampons e bastões para progressão. O grau de inclinação é bem razoável, algo em torno de 60 ou 65 graus. Subimos bem tranqüilos, sem segurança de cordas até a continuação das morainas, a pior parte. Ainda mais íngreme e com o cascalho deslizando muito a ponto de algumas vezes eu dar várias passadas sem sair do lugar.

Enfim, chegamos à boca do vulcão. Um vento extremamente gelado não permitia ficar mais do que um minuto parado. Já podíamos ver toda a circunferência parcialmente coberta de gelo e o cume principal mais adiante, a 15 minutos de caminhada.

Abraços emocionados, fotografias, filmagens e, principalmente, medição de glicose para nos preparar para descer. Lá desfraldamos várias bandeiras: da Argentina, Uruguai e Brasil, bandeira do projeto Bandera Al Cielo e das empresas que contribuíram de alguma forma para que estivéssemos lá: OID (Organización Internacional para el Desarollo), Abott e Escuela Argentina de Triathlon.

A descida foi bem mais rápida já que o cascalho deslizava no mesmo sentido que queríamos ir e o plano era ir ao acampamento 2, descansar um pouco, comer e descer para o acampamento 1. Tudo estaria tranqüilo não fossem uma emoção a mais propiciada pelos famosos ventos patagônicos.

Quando chegamos ao acampamento 2 fomos surpreendidos com uma das barracas virada (ela tinha várias pedras grandes dentro para mantê-la no chão). Pouco depois uma nova e violenta lufada de vento fez com que nossa barraca desse um vôo de 50 metros acima do chão, na forma de um redemoinho, espalhando as poucas coisas que não estavam ensacadas pelo terreno em volta e, caprichosamente, retornando em nossa direção. Saímos correndo atrás das coisas, mas o isolante térmico do Abayubá, que era mais leve, alçou vôo e a essa altura deve estar no Chile ou Oceano Pacífico, porque não desceu mais. Achamos algumas meias, sacos de dormir, isolantes mais pesados e até a insulina do Aba.

Tudo recolhido, pusemos rapidamente nossas coisas nas mochilas e deixamos a alimentação para ser realizada no acampamento 1. Lá chegando iniciamos a montagem das barracas (uma delas parcialmente destruída). Curiosamente havia pouco vento. Aproveitei para cumprir a promessa de me atirar no lago de degelo. Foi ótimo! Depois de vários dias extremamente secos e com bastante terra em suspensão, a impressão que dava é que tinha parte do solo patagônico até nas raízes dos cabelos que ainda não haviam nascido. Que boa é a sensação de molhar o corpo. Dia seguinte, arrumamos as coisas e trilhamos o caminho de volta à tal “base”, que de acampamento não tinha nada, para encontrar a van que nos levaria de volta a Chos Malal.

Última surpresa guardada pelo guia Beto, de Chos Malal: banho em águas calientes, com corredeiras de água quente a mais de 60 graus.

Renovados, buscamos o caminho de volta, gastando o que ainda nos restava de pilhas e espaço na memória das câmeras. Ainda nos restaram dois dias de descanso até o próximo ônibus que nos levou de volta até Néuquen e depois para Buenos Aires, onde demos várias entrevistas para programas de tv local.

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