Parque Nacional do Cunhambebe - RJ

por Alberto Ortenblad

          

Este é o mais recente parque natural fluminense, debruçado sobre a região marítima de Angra dos Reis e Mangaratiba. Recoberto por densas florestas, contém montanhas de formatos peculiares, com belas vistas para o litoral. Mas também existem rios encachoeirados, com piscinas naturais e quedas d´água, além de paredes de escalada e rampas de vôo livre, que podem interessar a um público amplo e variado.
 


O Parque Estadual
Acaba de ser criado um novo Parque no Estado do Rio de Janeiro, chamado de Cunhambebe. Em 2008 foi estabelecida uma expressiva área de 38 mil ha, abrangendo os municípios litorâneos de Itaguaí, Mangaratiba e Angra dos Reis, além da região adjacente de Rio Claro. É o segundo maior parque do Estado, atrás apenas do de Três Picos, na região serrana fluminense.
O Cunhambebe abrange as encostas altas dos municípios costeiros, bem como as áreas das divisas destes com o planalto, incluindo o entorno da Represa do Ribeirão das Lages. A estratégia para sua localização foi evitar a inclusão de regiões agropastoris já ocupadas. Como resultado, ele só é continuo nas paredes litorâneas e nas regiões serranas elevadas. Nas encostas do planalto, explorados desde os tempos do café, ele ocupa apenas os espigões das serras. Isso lhe dá um desenho extremamente irregular.
Por esta razão, 95% de sua área é representada por matas bem conservadas – apesar de predominantemente secundárias. Você encontrará árvores frondosas, como angicos, cedros e jequitibás. As florestas abrigam monos carvoeiros, lontras e queixadas, além de espécies ameaçadas, como antas e onças. Na superfície da represa podem ser avistados patos selvagens e martins pescadores. O Parque contém também as ruínas da vila de São João Marcos e da estrada imperial que a ligava a Mangaratiba.
Ele formará uma importante extensão contínua com os 100 mil ha do Parque Nacional da Serra da Bocaina, junto com a pequena área que abriga os índios guaranis na Reserva Indígena de Bracuhy. Por sua vez, a Bocaina é contígua aos 300 mil ha do Parque da Serra do Mar, que se estende até os limites da Juréia. Esta é outra região protegida, que se conecta no Paraná à de Guaraqueçaba. Desta forma, algo como 600 km de nosso litoral, desde Mangaratiba até a Ilha do Mel, estão hoje envolvidos por áreas de conservação permanente.

O Cacique Cunhambebe
No início da nossa colonização, não foi pacífica a ocupação portuguesa da costa brasileira. Os índios tamoios alojavam-se num vasto território no Sudeste do país, desde São Sebastião até Cabo Frio e desde o litoral até o Vale do Paraíba, região dos guaianases. Divididos nas tribos dos tupinambás e dos tupiniquins, aliaram-se aos franceses e combateram corajosamente os invasores portugueses, que os destruíam e escravizavam.
O chefe da nação tupinambá era o gigantesco e destemido Cunhambebe. Atraído pelos jesuítas, acabou celebrando com os portugueses o Tratado de Iperoig, que pôs fim à guerra. Uma vez desarmados, os portugueses expulsaram os franceses e dizimaram os indígenas. No século seguinte, já não restava nenhum deles vivos na região do Rio de Janeiro. Aqueles que conseguiram fugir para o sertão originaram os atuais caiçaras.
Atualmente, Cunhambebe é lembrado pelo maior dos distritos da sua região natal de Angra dos Reis, que alcança inclusive parte da área do Parque que leva o seu nome.

A Serra das Três Orelhas
Meu conhecimento do Parque de Cunhambebe é superficial, até mesmo porque ele ainda não dispõe de nenhuma estrutura ou sequer de uma simples portaria. Passei apenas três dias caminhando pela sua área de planalto – e, naturalmente, já conhecia algumas das regiões litorâneas. Agradeço ao apoio de Eviedson Aventureiro Fragoso (contatolimpatrilha@yahoo.com.br), que é dos poucos que conhece o Cunhambebe por inteiro.
O Parque é muito recortado e dividido em uma dezena de setores. Seu miolo fica a oeste e é constituído pelas Serras do Piloto, do Sinfrônio, das Três Orelhas e do Pinto. Para os praticantes de montanhismo, o mais interessante dos setores fica em Mangaratiba: é o da Serra das Três Orelhas, assim chamada devido às três corcovas rochosas que aparecem em sucessão. Talvez seja melhor avistar do que visitar esta formação – segundo soube, a trilha encontra-se muito fechada, pois não é percorrida há cerca de 2½ anos.
Mas perto dela existem duas belas montanhas: as Pedras Chata e do Fogo, ambas acima de 1.500m. Os acessos a estas duas formações partem de Lídice, vila que é um distrito de Rio Claro, e bem mais interessante do que este. Eles são parecidos, 8 a 9 km em estradinhas de terra em condições razoáveis, pelo menos no inverno. Suas trilhas percorrem íngremes encostas inseridas na floresta exuberante, com ascensões de 550 a 600 metros.
A Pedra Chata é mais conhecida, com uma subida na direção sul de 4 km, que pode ser feita em 2½ hs. Já o caminho da Pedra do Fogo é mais longo, com 7.5 km no rumo sudeste, que passa por trechos mal definidos de mata e pode demandar até 5 hs só de ida. Do alto das pedras, há uma linda vista da superfície do mar, que envolve a Restinga de Marambaia e banha a planície de Porto Belo, bem como das Três Orelhas e do sertão de Rio Claro.
Igualmente, existem os acessos a duas outras montanhas que, devido aos seus formatos sugestivos, podem ser reconhecidas de longe. São ambas pertencentes à Serra das Três Orelhas - o Pão de Açúcar e o Pico do Papagaio. Confesso, porém, que tenho dificuldade em imaginar as razões para estes nomes, pois não se parecem com seus modelos. Este interessante conjunto de cumes próximos é considerado com razão o cartão postal do Parque.

Os Setores no Planalto
Mas existem outros setores interessantes. Você percorrerá o da Serra do Sinfrônio ao longo da sinuosa rodovia asfaltada que desce de Rio Claro a Angra dos Reis. Ela é bem sugestiva, atravessando túneis escavados em rocha e mirantes sobre a Baía da Ilha Grande.
O Pico do Sinfrônio é uma formação agressivamente empinada, com cerca de 1.600m, o mais elevado de Angra. Sua ascensão segue num rumo oeste, sempre dentro da mata fechada - por esta razão, não tem sido praticada. Serão provavelmente 6 km de ida, com um desnível de 600 metros. Seu cume deverá permitir uma preciosa vista de grande parte do Cunhambebe, devido à sua altitude desembaraçada e à sua localização central no lado oeste do Parque.
Já a cachoeira da Carmem, no vale ao lado do Sinfrônio, é muito especial. Situada num local remoto, possui uma longa laje de pedra por onde se verte a água do Rio Papudo. Ele forma uma pequena piscina natural, à frente de uma antiga casa de madeira que lembra um refúgio de montanha. Ela tem à sua volta um jardim rústico, em que árvores e flores convivem com muros de pedras.
O setor do Ribeirão das Lages fica em Rio Claro e circunda a represa, contendo as ruínas da vila de São João Marcos. Era uma linda cidade, uma espécie de Parati rural. Ela foi tragicamente evacuada e demolida, pois seria submersa pela represa, fato que acabou nunca ocorrendo. Nas proximidades, há os vestígios das calçadas e dos muros da estrada imperial que ligava esta vila a Mangaratiba, incluindo a Ponte Bela, esta sim parcialmente submersa.
Adjacente a este setor, fica o da Serra do Piloto, cujo longo perfil recortado é visível das ruínas de São João Marcos. Nele ocorrem algumas quedas d´água pequenas, como as Cachoeiras dos Escravos, do Rubião e da Bengala, distribuídas pela zona rural. A Prefeitura de Mangaratiba escolheu duas trilhas para receberem sinalização, ambas leves com 6 km, porém ainda não implantadas. Existem mais trilhas curtas em outros setores, também esperando por sinalização.

Os Setores Litorâneos
Alguns dos setores são próximos ao litoral, apresentando poços, rios, cachoeiras e, naturalmente, muita visitação, como são os casos de Muriqui, de Jacareí e do Sahy. A Pedra da Conquista fica neste último setor – os escravos fugitivos abrigavam-se nela e pulavam dela para a morte, em protesto contra a cruel escravidão. A Prefeitura de Mangaratiba selecionou a curta rota dos escravos para receber sinalização.
A mais bela das cachoeiras do Cunhambebe talvez seja a do Espelho: ela é assim chamada devido ao reflexo do sol da tarde em suas águas. Fica no setor Jacuecanga (onde existe um enorme estaleiro), com três quedas sucessivas de 50 metros, alcançáveis por uma caminhada de 2½ hs na densa mata do Rio Caputera. Os paredões do Morro da Boa Vista localizam-se neste setor. Alguns dos setores restantes são descritos como escarpados e isolados.
O Parque apresenta potencial para travessias, embora que eu saiba elas não sejam praticadas regularmente. Uma delas requer dois dias – ela parte da vila da Banqueta próximo ao litoral, segue pela antiga linha férrea para Barra Mansa e chega mata a dentro ao sertão do Sinfrônio, passando por piscinas naturais e atravessando uma flora variada.Uma versão deste caminho chega a Lídice, com uma bela visão do litoral perto da localidade de Cameru.

Um Potencial a Explorar
Além da diversidade de trilhas, vale lembrar que em muitas das paredes do Cunhambebe são praticadas escaladas, em especial na Pedra da Conquista, na Serra da Cachoeirinha e no Morro da Boa Vista. Se você for adepto do vôo livre, da canoagem, do mountain bike ou do enduro, poderá encontrar locais para a prática destes esportes.
Por razões para mim até hoje misteriosas, a criação de parques naturais no Brasil nunca é acompanhada de medidas para realmente conhecê-los. Nem vou citar os exemplos, melhor seria perguntar se alguma vez sequer isso deixou de acontecer.
Como o Parque de Cunhambebe tem o raro privilégio de ser gerido por um montanhista, espero que sejam logo implantadas estruturas para visitação. Os andarilhos da natureza agradecerão se o Parque vier a inaugurar uma nova postura de comprometimento com o ecoturismo.


 
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