|
|
Parque Nacional do Cunhambebe - RJ
Este é o mais recente parque natural
fluminense, debruçado sobre a região marítima de Angra dos Reis e
Mangaratiba. Recoberto por densas florestas, contém montanhas de
formatos peculiares, com belas vistas para o litoral. Mas também existem
rios encachoeirados, com piscinas naturais e quedas d´água, além de
paredes de escalada e rampas de vôo livre, que podem interessar a um
público amplo e variado.
O Parque Estadual
Acaba de ser criado um novo Parque no Estado do Rio de Janeiro, chamado
de Cunhambebe. Em 2008 foi estabelecida uma expressiva área de 38 mil
ha, abrangendo os municípios litorâneos de Itaguaí, Mangaratiba e Angra
dos Reis, além da região adjacente de Rio Claro. É o segundo maior
parque do Estado, atrás apenas do de Três Picos, na região serrana
fluminense.
O Cunhambebe abrange as encostas altas dos municípios costeiros, bem
como as áreas das divisas destes com o planalto, incluindo o entorno da
Represa do Ribeirão das Lages. A estratégia para sua localização foi
evitar a inclusão de regiões agropastoris já ocupadas. Como resultado,
ele só é continuo nas paredes litorâneas e nas regiões serranas
elevadas. Nas encostas do planalto, explorados desde os tempos do café,
ele ocupa apenas os espigões das serras. Isso lhe dá um desenho
extremamente irregular.
Por esta razão, 95% de sua área é representada por matas bem conservadas
– apesar de predominantemente secundárias. Você encontrará árvores
frondosas, como angicos, cedros e jequitibás. As florestas abrigam monos
carvoeiros, lontras e queixadas, além de espécies ameaçadas, como antas
e onças. Na superfície da represa podem ser avistados patos selvagens e
martins pescadores. O Parque contém também as ruínas da vila de São João
Marcos e da estrada imperial que a ligava a Mangaratiba.
Ele formará uma importante extensão contínua com os 100 mil ha do Parque
Nacional da Serra da Bocaina, junto com a pequena área que abriga os
índios guaranis na Reserva Indígena de Bracuhy. Por sua vez, a Bocaina é
contígua aos 300 mil ha do Parque da Serra do Mar, que se estende até os
limites da Juréia. Esta é outra região protegida, que se conecta no
Paraná à de Guaraqueçaba. Desta forma, algo como 600 km de nosso
litoral, desde Mangaratiba até a Ilha do Mel, estão hoje envolvidos por
áreas de conservação permanente.
O Cacique Cunhambebe
No início da nossa colonização, não foi pacífica a ocupação portuguesa
da costa brasileira. Os índios tamoios alojavam-se num vasto território
no Sudeste do país, desde São Sebastião até Cabo Frio e desde o litoral
até o Vale do Paraíba, região dos guaianases. Divididos nas tribos dos
tupinambás e dos tupiniquins, aliaram-se aos franceses e combateram
corajosamente os invasores portugueses, que os destruíam e escravizavam.
O chefe da nação tupinambá era o gigantesco e destemido Cunhambebe.
Atraído pelos jesuítas, acabou celebrando com os portugueses o Tratado
de Iperoig, que pôs fim à guerra. Uma vez desarmados, os portugueses
expulsaram os franceses e dizimaram os indígenas. No século seguinte, já
não restava nenhum deles vivos na região do Rio de Janeiro. Aqueles que
conseguiram fugir para o sertão originaram os atuais caiçaras.
Atualmente, Cunhambebe é lembrado pelo maior dos distritos da sua região
natal de Angra dos Reis, que alcança inclusive parte da área do Parque
que leva o seu nome.
A Serra das Três Orelhas
Meu conhecimento do Parque de Cunhambebe é superficial, até mesmo porque
ele ainda não dispõe de nenhuma estrutura ou sequer de uma simples
portaria. Passei apenas três dias caminhando pela sua área de planalto –
e, naturalmente, já conhecia algumas das regiões litorâneas. Agradeço ao
apoio de Eviedson Aventureiro Fragoso (contatolimpatrilha@yahoo.com.br),
que é dos poucos que conhece o Cunhambebe por inteiro.
O Parque é muito recortado e dividido em uma dezena de setores. Seu
miolo fica a oeste e é constituído pelas Serras do Piloto, do Sinfrônio,
das Três Orelhas e do Pinto. Para os praticantes de montanhismo, o mais
interessante dos setores fica em Mangaratiba: é o da Serra das Três
Orelhas, assim chamada devido às três corcovas rochosas que aparecem em
sucessão. Talvez seja melhor avistar do que visitar esta formação –
segundo soube, a trilha encontra-se muito fechada, pois não é percorrida
há cerca de 2½ anos.
Mas perto dela existem duas belas montanhas: as Pedras Chata e do Fogo,
ambas acima de 1.500m. Os acessos a estas duas formações partem de
Lídice, vila que é um distrito de Rio Claro, e bem mais interessante do
que este. Eles são parecidos, 8 a 9 km em estradinhas de terra em
condições razoáveis, pelo menos no inverno. Suas trilhas percorrem
íngremes encostas inseridas na floresta exuberante, com ascensões de 550
a 600 metros.
A Pedra Chata é mais conhecida, com uma subida na direção sul de 4 km,
que pode ser feita em 2½ hs. Já o caminho da Pedra do Fogo é mais longo,
com 7.5 km no rumo sudeste, que passa por trechos mal definidos de mata
e pode demandar até 5 hs só de ida. Do alto das pedras, há uma linda
vista da superfície do mar, que envolve a Restinga de Marambaia e banha
a planície de Porto Belo, bem como das Três Orelhas e do sertão de Rio
Claro.
Igualmente, existem os acessos a duas outras montanhas que, devido aos
seus formatos sugestivos, podem ser reconhecidas de longe. São ambas
pertencentes à Serra das Três Orelhas - o Pão de Açúcar e o Pico do
Papagaio. Confesso, porém, que tenho dificuldade em imaginar as razões
para estes nomes, pois não se parecem com seus modelos. Este
interessante conjunto de cumes próximos é considerado com razão o cartão
postal do Parque.
Os Setores no Planalto
Mas existem outros setores interessantes. Você percorrerá o da Serra do
Sinfrônio ao longo da sinuosa rodovia asfaltada que desce de Rio Claro a
Angra dos Reis. Ela é bem sugestiva, atravessando túneis escavados em
rocha e mirantes sobre a Baía da Ilha Grande.
O Pico do Sinfrônio é uma formação agressivamente empinada, com cerca de
1.600m, o mais elevado de Angra. Sua ascensão segue num rumo oeste,
sempre dentro da mata fechada - por esta razão, não tem sido praticada.
Serão provavelmente 6 km de ida, com um desnível de 600 metros. Seu cume
deverá permitir uma preciosa vista de grande parte do Cunhambebe, devido
à sua altitude desembaraçada e à sua localização central no lado oeste
do Parque.
Já a cachoeira da Carmem, no vale ao lado do Sinfrônio, é muito
especial. Situada num local remoto, possui uma longa laje de pedra por
onde se verte a água do Rio Papudo. Ele forma uma pequena piscina
natural, à frente de uma antiga casa de madeira que lembra um refúgio de
montanha. Ela tem à sua volta um jardim rústico, em que árvores e flores
convivem com muros de pedras.
O setor do Ribeirão das Lages fica em Rio Claro e circunda a represa,
contendo as ruínas da vila de São João Marcos. Era uma linda cidade, uma
espécie de Parati rural. Ela foi tragicamente evacuada e demolida, pois
seria submersa pela represa, fato que acabou nunca ocorrendo. Nas
proximidades, há os vestígios das calçadas e dos muros da estrada
imperial que ligava esta vila a Mangaratiba, incluindo a Ponte Bela,
esta sim parcialmente submersa.
Adjacente a este setor, fica o da Serra do Piloto, cujo longo perfil
recortado é visível das ruínas de São João Marcos. Nele ocorrem algumas
quedas d´água pequenas, como as Cachoeiras dos Escravos, do Rubião e da
Bengala, distribuídas pela zona rural. A Prefeitura de Mangaratiba
escolheu duas trilhas para receberem sinalização, ambas leves com 6 km,
porém ainda não implantadas. Existem mais trilhas curtas em outros
setores, também esperando por sinalização.
Os Setores Litorâneos
Alguns dos setores são próximos ao litoral, apresentando poços, rios,
cachoeiras e, naturalmente, muita visitação, como são os casos de
Muriqui, de Jacareí e do Sahy. A Pedra da Conquista fica neste último
setor – os escravos fugitivos abrigavam-se nela e pulavam dela para a
morte, em protesto contra a cruel escravidão. A Prefeitura de
Mangaratiba selecionou a curta rota dos escravos para receber
sinalização.
A mais bela das cachoeiras do Cunhambebe talvez seja a do Espelho: ela é
assim chamada devido ao reflexo do sol da tarde em suas águas. Fica no
setor Jacuecanga (onde existe um enorme estaleiro), com três quedas
sucessivas de 50 metros, alcançáveis por uma caminhada de 2½ hs na densa
mata do Rio Caputera. Os paredões do Morro da Boa Vista localizam-se
neste setor. Alguns dos setores restantes são descritos como escarpados
e isolados.
O Parque apresenta potencial para travessias, embora que eu saiba elas
não sejam praticadas regularmente. Uma delas requer dois dias – ela
parte da vila da Banqueta próximo ao litoral, segue pela antiga linha
férrea para Barra Mansa e chega mata a dentro ao sertão do Sinfrônio,
passando por piscinas naturais e atravessando uma flora variada.Uma
versão deste caminho chega a Lídice, com uma bela visão do litoral perto
da localidade de Cameru.
Um Potencial a Explorar
Além da diversidade de trilhas, vale lembrar que em muitas das paredes
do Cunhambebe são praticadas escaladas, em especial na Pedra da
Conquista, na Serra da Cachoeirinha e no Morro da Boa Vista. Se você for
adepto do vôo livre, da canoagem, do mountain bike ou do enduro, poderá
encontrar locais para a prática destes esportes.
Por razões para mim até hoje misteriosas, a criação de parques naturais
no Brasil nunca é acompanhada de medidas para realmente conhecê-los. Nem
vou citar os exemplos, melhor seria perguntar se alguma vez sequer isso
deixou de acontecer.
Como o Parque de Cunhambebe tem o raro privilégio de ser gerido por um
montanhista, espero que sejam logo implantadas estruturas para
visitação. Os andarilhos da natureza agradecerão se o Parque vier a
inaugurar uma nova postura de comprometimento com o ecoturismo.
|
|
O que acontece no Montanhismo Brasileiro, você acompanha no Mountain Voices.
Assine já
e receba em casa a versão impressa e integral do Informe Brasileiro de Excursionismo. |
AVISO : A escalada em suas várias modalidades é um esporte potencialmente
perigoso, que pode resultar em acidente e até morte do praticante.
Não somos responsáveis pelas informações contidas neste site, que venham a causar
qualquer tipo de dano à pessoa que por sua livre vontade, resolver praticar o
montanhismo, sendo que nem mesmo com guia especializado e equipamento adequado pode-se
eliminar a possibilidade de acidente fatal. |
====================
SUA SEGURANÇA É SUA RESPONSABILIDADE
====================
+ Revise nós e
fivelas do baudrier;
+ Inspecione seu equipo e
troque quando necessário;
+ Saiba se seu companheiro
está habilitado a escalar com segurança;
+ Cheque sua parada;
+ Equipamento fixo é
duvidoso, certifique-se;
+ Rocha quebra, teste as
agarras;
+ Sempre vistorie
duplamente seu sistema de rapel;
+ Capacete pode salvar sua
vida.
|
| Se você quiser ser informado via e-mail sobre o que acontece no
excursionismo Brasileiro, envie seu nome e e-mail para mv@mountainvoices.com.br |
|