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Complexidades da Escalada

O cenário se repete, um competidor de ponta da Copa do Mundo de boulder
se classifica
em primeiro nas eliminatórias, desbancando os grandes nomes em jogo, já
na fase seguinte, o mesmo não é capaz de se classificar para as finais
entre os oito melhores. Como pode essa diferença tão gritante ser fator
limitante dentro da mesma competição? E em um espaço de tempo tão curto?
A complexidade na escalada é a responsável por tantas variáveis.
Por mais que a escalada tenha sido reconhecida somente agora pelo COI, e
em alguns anos nas olimpíadas, este esporte apresenta uma série de
complexidades e detalhes que a transforma em um dos esportes mais
completos que se tem notícia, não só pelo aspecto físico, que por si só
renderia aqui páginas e páginas, mas do ponto de vista tático, técnico e
psicológico, se tornou um esporte tão complexo, que poucos estudos
científicos existem à disposição para se abastecer de informações.
Muitos livros, vídeos e revistam podem teorizar e apresentar técnicas e
soluções, mas só a real vivência ou “mão na agarra” no dia a dia para
experimentar movimentos e “movimentos”.
É comum a seguinte analogia: um pianista pode começar a tocar desde
criança, o que resultará em um excelente músico se tocar por toda sua
carreira e vida, mas é impossível até mesmo para este indivíduo,
conseguir tocar todas as combinações possíveis de notas musicais
oferecidas pelo piano.
Na escalada acontece algo similar. Mesmo as gerações nascidas entre
montanhas e equipamentos, tendem a superar a cada dia novas barreiras,
escalando graus até então não imaginados, mas até mesmo para eles, um
movimento ou alguns movimentos inéditos podem aparecer dentro de uma via
ou boulder escalado pela primeira vez, forçando o mesmo a se adaptar ou
tentar encontrar outra solução que esteja fora do seu repertório.
E é exatamente o que tem acontecido principalmente em etapas da Copa do
Mundo de Boulder. A cada fase, uma competição paralela acontece, ou
seja, a cada boulder, movimentos e estilos distintos se apresentam para
os competidores, deixando desorientado até mesmo o mais forte
fisicamente e mentalmente, onde, para uma competição deste nível, estar
bem preparado, taticamente e tecnicamente, é fundamental e pode sim
superar um bom par de braços fortes.
Se considerarmos que uma agarra pode girar 360º com um aperto de chave,
e que esta pode combinar com uma ou duas agarras de pé, e que esta
combinação pode variar em distâncias e inclinações de positivas a
negativas, temos assim combinações infinitas, ou pelo menos trabalho em
tentar catalogar ou experimentar o máximo possível de movimentos por
muitos e muitos anos. É por esse motivo que dentro do aprendizado da
escalada, quanto mais movimentos (corretos) um escalador conseguir
realizar em sua sessão de treinos, mais completo e eficaz será sua
evolução, e a referência a “correto” se aplica aos movimentos mais
eficazes em relação ao“ posicionamento básico”, onde uma forma mais
equilibrada e encaixada na parede resulta em uma economia maior de
energia e movimentos fluídos, e esses movimentos mais utilizados
frequentemente, podem e devem ser armazenados em uma “pasta” de rápido
acesso no seu “HD”; já os movimentos mais estranhos, a princípio, podem
ir para outra “pasta” de acesso posterior, quando a movimentação passa a
ser mais explosiva, fora de esquadro ou desequilibrada. Geralmente
quando se entra na fase do boulder mais intenso, aqueles movimentos que
até então foram descartados por serem totalmente fora dos padrões
normais, podem servir perfeitamente nesta fase.
Uma parede cheia de agarras e opções sempre será uma boa ferramenta para
experimentar e armazenar movimentos. Agora imagine que há 15 anos atrás,
as paredes tinham poucas agarras para treinos , o que, de certa forma,
contribuiu por sua vez em forçarmos a inventar e reinventar movimentos
para podermos treinar, criando, assim, movimentos tão estranhos que,
após tantos anos, as “pastas “ com estes movimentos passam a ser abertas
e utilizadas com mais frequência, e o que era para nós antes
desmotivante, se converteu em uma base muito sólida dentro da evolução.
Existem escaladores que “sobem” uma via e outros que “escalam” esta via,
não que o estilo seja fator determinante, mas presenciar uma escalada
feita com total domínio é no mínimo um fato a ser acrescentado dentro de
seu repertório geral, pois paralelo a esta execução de movimentos, o
fator psicológico sempre anda agregado, por vezes trazendo muita
motivação, mas por outras, uma desestruturação geral. Acrescentando mais
um item dentro desta infinidade de combinações, existem ainda os “dias e
dias da escalada”, dias que inexplicavelmente seu corpo e mente
simplesmente não reagem como no dia anterior ou posterior, medo de
quedas ou outros medos, acrescentam várias “pitadas” a mais nessa
receita tão complexa.
Aprender a escalar pode ser uma arte, uma dança, um esporte completo e
complexo, mas dominar técnicas e estilos é muito mais do que sair do
chão e chegar ao topo, muito se consegue na base da insistência e
adaptações físicas, mas os escaladores mais completos hoje em dia são os
que conseguem se adaptar com mais rapidez, e como num jogo de cartas, se
apresentado um jogo que lhe dê alguma vantagem, é um golpe de sorte, mas
ter na manga boas cartas e saber jogar na hora certa é o que faz a
diferença, seja em um boulder, uma fase, uma competição inteira, ou na
escalada em rocha, aquele que “flutua” em qualquer tipo de rocha, altura
ou inclinação, e o mais importante: deixando o grau como consequência de
uma base sólida adquirida com muitas horas de “voo”.
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