Complexidades da Escalada
 

por André Berezoski - SP

 Edson "Du Bois" Struminski




O cenário se repete, um competidor de ponta da Copa do Mundo de boulder se classifica
em primeiro nas eliminatórias, desbancando os grandes nomes em jogo, já na fase seguinte, o mesmo não é capaz de se classificar para as finais entre os oito melhores. Como pode essa diferença tão gritante ser fator limitante dentro da mesma competição? E em um espaço de tempo tão curto? A complexidade na escalada é a responsável por tantas variáveis.

Por mais que a escalada tenha sido reconhecida somente agora pelo COI, e em alguns anos nas olimpíadas, este esporte apresenta uma série de complexidades e detalhes que a transforma em um dos esportes mais completos que se tem notícia, não só pelo aspecto físico, que por si só renderia aqui páginas e páginas, mas do ponto de vista tático, técnico e psicológico, se tornou um esporte tão complexo, que poucos estudos científicos existem à disposição para se abastecer de informações.

 Muitos livros, vídeos e revistam podem teorizar e apresentar técnicas e soluções, mas só a real vivência ou “mão na agarra” no dia a dia para experimentar movimentos e “movimentos”.
É comum a seguinte analogia: um pianista pode começar a tocar desde criança, o que resultará em um excelente músico se tocar por toda sua carreira e vida, mas é impossível até mesmo para este indivíduo, conseguir tocar todas as combinações possíveis de notas musicais oferecidas pelo piano.
Na escalada acontece algo similar. Mesmo as gerações nascidas entre montanhas e equipamentos, tendem a superar a cada dia novas barreiras, escalando graus até então não imaginados, mas até mesmo para eles, um movimento ou alguns movimentos inéditos podem aparecer dentro de uma via ou boulder escalado pela primeira vez, forçando o mesmo a se adaptar ou tentar encontrar outra solução que esteja fora do seu repertório.
E é exatamente o que tem acontecido principalmente em etapas da Copa do Mundo de Boulder. A cada fase, uma competição paralela acontece, ou seja, a cada boulder, movimentos e estilos distintos se apresentam para os competidores, deixando desorientado até mesmo o mais forte fisicamente e mentalmente, onde, para uma competição deste nível, estar bem preparado, taticamente e tecnicamente, é fundamental e pode sim superar um bom par de braços fortes.

Se considerarmos que uma agarra pode girar 360º com um aperto de chave, e que esta pode combinar com uma ou duas agarras de pé, e que esta combinação pode variar em distâncias e inclinações de positivas a negativas, temos assim combinações infinitas, ou pelo menos trabalho em tentar catalogar ou experimentar o máximo possível de movimentos por muitos e muitos anos. É por esse motivo que dentro do aprendizado da escalada, quanto mais movimentos (corretos) um escalador conseguir realizar em sua sessão de treinos, mais completo e eficaz será sua evolução, e a referência a “correto” se aplica aos movimentos mais eficazes em relação ao“ posicionamento básico”, onde uma forma mais equilibrada e encaixada na parede resulta em uma economia maior de energia e movimentos fluídos, e esses movimentos mais utilizados frequentemente, podem e devem ser armazenados em uma “pasta” de rápido acesso no seu “HD”; já os movimentos mais estranhos, a princípio, podem ir para outra “pasta” de acesso posterior, quando a movimentação passa a ser mais explosiva, fora de esquadro ou desequilibrada. Geralmente quando se entra na fase do boulder mais intenso, aqueles movimentos que até então foram descartados por serem totalmente fora dos padrões normais, podem servir perfeitamente nesta fase.

Uma parede cheia de agarras e opções sempre será uma boa ferramenta para experimentar e armazenar movimentos. Agora imagine que há 15 anos atrás, as paredes tinham poucas agarras para treinos , o que, de certa forma, contribuiu por sua vez em forçarmos a inventar e reinventar movimentos para podermos treinar, criando, assim, movimentos tão estranhos que, após tantos anos, as “pastas “ com estes movimentos passam a ser abertas e utilizadas com mais frequência, e o que era para nós antes desmotivante, se converteu em uma base muito sólida dentro da evolução.

Existem escaladores que “sobem” uma via e outros que “escalam” esta via, não que o estilo seja fator determinante, mas presenciar uma escalada feita com total domínio é no mínimo um fato a ser acrescentado dentro de seu repertório geral, pois paralelo a esta execução de movimentos, o fator psicológico sempre anda agregado, por vezes trazendo muita motivação, mas por outras, uma desestruturação geral. Acrescentando mais um item dentro desta infinidade de combinações, existem ainda os “dias e dias da escalada”, dias que inexplicavelmente seu corpo e mente simplesmente não reagem como no dia anterior ou posterior, medo de quedas ou outros medos, acrescentam várias “pitadas” a mais nessa receita tão complexa.

Aprender a escalar pode ser uma arte, uma dança, um esporte completo e complexo, mas dominar técnicas e estilos é muito mais do que sair do chão e chegar ao topo, muito se consegue na base da insistência e adaptações físicas, mas os escaladores mais completos hoje em dia são os que conseguem se adaptar com mais rapidez, e como num jogo de cartas, se apresentado um jogo que lhe dê alguma vantagem, é um golpe de sorte, mas ter na manga boas cartas e saber jogar na hora certa é o que faz a diferença, seja em um boulder, uma fase, uma competição inteira, ou na escalada em rocha, aquele que “flutua” em qualquer tipo de rocha, altura ou inclinação, e o mais importante: deixando o grau como consequência de uma base sólida adquirida com muitas horas de “voo”.
 


 
Leia mais matérias na edição impressa.

O que acontece no Montanhismo Brasileiro, você acompanha no Mountain Voices.

Assine já e receba em casa a versão impressa e integral do Informe Brasileiro de Excursionismo.

AVISO : A escalada em suas várias modalidades é um esporte potencialmente perigoso, que pode resultar em acidente e até morte do praticante.
Não somos responsáveis pelas informações contidas neste site, que venham a causar qualquer tipo de dano à pessoa que por sua livre vontade, resolver praticar o montanhismo, sendo que nem mesmo com guia especializado e equipamento adequado pode-se eliminar a possibilidade de acidente fatal.
====================
SUA SEGURANÇA É SUA RESPONSABILIDADE
====================
+ Revise nós e fivelas do baudrier;
+ Inspecione seu equipo e troque quando necessário;
+ Saiba se seu companheiro está habilitado a escalar com segurança;
+ Cheque sua parada;
+ Equipamento fixo é duvidoso, certifique-se;
+ Rocha quebra, teste as agarras;
+ Sempre vistorie duplamente seu sistema de rapel;
+ Capacete pode salvar sua vida.
Se você quiser ser informado via e-mail sobre o que acontece no excursionismo Brasileiro, envie seu nome e e-mail para mv@mountainvoices.com.br

 

Tem uma aventura para contar? Sabe de um novo point de escalada? Viajou para algum lugar alucinante?
>>
Mande uma matéria via e-mail para o MountainVoices.
Veja a previsão do tempo para os próximos dias nas várias regiões do Brasil.