Desventuras no
Colorado
Márcio Bortolusso, SP
Alguns de meus
planos foram por água abaixo na véspera do embarque, ao receber infos de
escaladores locais sobre as péssimas condições das rotas que pretendia
tentar. Em meio a um turbilhão de trabalhos, saí do Brasil sem tempo de
preparar adequadamente a logística de uma grande escalada e pesquisar
infos.
Durante a primeira
semana, documentei a Gore-tex Transrockies Run, Corrida de
Montanha que cruzou as Rochosas do Colorado e me deixa triste ao lembrar
das provas do gênero realizadas no Brasil. A preocupação pelo mínimo
impacto e pelo bem estar dos atletas era visível, a começar pela escolha
do trajeto, rigorosas penalidades e parceria com grupos de montanhismo
local.
Como iria tentar uma
balada puxada nas semanas seguintes, o evento serviu para me aclimatar,
podendo forçar o ritmo em ascensões fáceis como da Resolution
Mountain (3.629m), Hornsilver Mountain (3.526m), Vail
Mountain (3.400m), Eagle´s Nest (3.146m) e até mesmo em
corridas por áreas mais rarefeitas, como no Hagerman Pass
(3.998m).
Exausto após tanto
sobe e desce (cerca de 8,3 km de desnível acumulado), aluguei um carro e
cai na estrada em busca de descanso. Rodei milhares de quilômetros, em
jornadas diárias de até 19 horas de volante, pelos estados do Colorado,
Utah, Novo México e Arizona, tendo o privilégio de ver o pôr do sol no
Grand Canyon em um dia e a lua nascendo por entre as belíssimas
(e convidativas) torres de arenito do Monument Valley em outro.
É facilmente
compreensível o porque da reserva indígena Monument Valley Navajo
Tribal Park ser conhecida como a 8º maravilha do mundo. Como
documentarista, tive o privilégio de uma autorização especial para
visitar áreas restritas de um dos lugares mais incríveis da Terra, mas
preciso lembrar que infelizmente é proibido escalar as mais famosas
torres do mundo.
Com o corpo
recomposto e com os dedos coçando por uma escalada de verdade, pisei
fundo de volta para o Colorado, um dos berços americanos da escalada,
com points célebres como Boulder, Vail, Telluride,
Red Cliff, Colorado Springs e tantos outros.

As Montanhas
Rochosas se estendem por 4.800 km do México até o Canadá e é no estado
do Colorado que se encontram algumas das montanhas mais altas e
importantes da Bushlândia, distribuídas em cadeias como Front,
Tenmile, Mosquito, Sawatch, Sangre de Cristo, San Juan e Elk
Mountains. A região abriga centenas de montanhas com mais de 11 mil
pés (cerca de 3.666m), 737 cumes com 13 mil (4.333m) e 53 picos acima de
14 mil (4.666m), os famosos “Colorado Fourteeners”.
Últimos equipos e
mantimentos comprados, autorização especial em mãos (para pernoitar
alguns dias em áreas não permitidas do White River National Forest)
e armei acampamento aos pés do Marron Bells (4.718m), uma das
montanhas mais belas e conhecidas dos EUA. Na verdade, sob temperaturas
negativas, acabei passando a noite “tentando” dormir dentro do carro,
pois na onda de fazer uma escalada veloz, levei apenas um fino saco de
bivaque e o mínimo de roupas e equipos.
O meu plano inicial
era o afamado “Bell Cord Couloir”, um espetacular corredor de
neve bastante estreito que despenca com ângulo impressionante por entre
os cumes dos imponentes North e South Maroon. Apesar dos
alertas sobre as dificuldades de tal rota e de me afirmarem que seria
impossível escalá-la nesta época do ano pela falta de neve, precisava
comprovar com meus próprios olhos (estava ali, sonhava há semanas com a
rota, já tinha memorizado cada um de seus tramos e uma forte tempestade
de neve havia caído há alguns dias aumentando minhas esperanças). Após
algumas horas de trote e passo forte, ao final da caminhada de
aproximação... abortei a tentativa. A rota já é famosa pelas constantes
avalanches e quedas de pedra (uma placa na trilha alertava sobre a
quantidade de vidas perdidas durante a escalada de tal montanha,
inclusive de alpinistas experientes) e nas condições que a rota se
encontrava realmente parecia suicídio – pouca neve no corredor,
passagens em gelo vertical, muito fino e com veios de água brotando por
todos os lados. Durante a volta, já no escuro, ainda foi possível ouvir
o som único de uma avalanche, provavelmente lambendo o corredor.
Um tanto frustrado,
baixei até meu acampamento à beira do Maroon Lake, lugar perfeito
para refletir, falar sozinho (rs) e decidir qual das mil montanhas ao
meu redor poderia acalmar a minha inconformada alma (rs).
Como pretendia
escalar rápido e sem cordas, após consultar outros escaladores, acabei
decidido a tentar a Northeast Ridge do Capitol Peak
(4.710m), rota que teria maiores chances de desescalar ao invés de
rapelar.
Segundo alguns
autores e escaladores que já escalaram todas as maiores montanhas dos
EUA, o Capitol Peak é considerado a montanha mais difícil dos
Fourteeners do Colorado, se igualando em número de fatalidades com o
Maroon Bells, o Crestone Peak e o Little Bear.
Mesmo a sua rota normal apresenta dificuldades constantes de classe 4 e
riscos suficientes para manter a sua fama de perigosa.
Apesar dos riscos, a
Northeast Ridge é uma via lindíssima, que se estende de forma
impressionante por uma longa aresta com lances isolados tecnicamente
fáceis. Os maiores problemas desta via são a qualidade da rocha –
completamente solta e quebradiça – e as suas elevações e distâncias – a
escalada e a caminhada somam 32 km de extensão ida e volta, o desnível
acumulado chega a mais de 3.800 metros (1.900 só de ascensão) e é
preciso cruzar uma extensa e afiada lâmina rochosa com cerca de 2.250
metros de extensão, o famoso Knife Edge do Capitol.
Normalmente a
escalada é feita em 2 ou 3 dias: aproximação até o Capitol Lake
no primeiro dia, ataque ao cume na madrugada do dia seguinte e retorno.
Com pouco tempo e sem querer desperdiçar a boa janela de tempo, decidi
tentar em um dia só, partindo bem cedo e tentando escalar o mais rápido
possível (levando o mínimo necessário). Novamente intercalando corrida e
passo forte, ganhando tempo para a escalada, realizei os 12,75 km da
trilha de aproximação em 2:15 horas, por uma trilha que serpenteia um
rio por entre um bosque incrível, até o Capitol Lake.
Do lago subi cerca
de 300 metros fáceis por um campo de gelo que logo de cara me apresentou
como seria o resto do dia. Uma forte tempestade de neve, como a que
deveria ter caído no Maroon Bells outro dia para uma tentativa,
havia dado as graças na noite anterior e ao vestir os crampons na
aproximação... não tirei mais (detalhe: a rota pede apenas sapatilhas ou
bota de escalada).
A neve fofa que
engolia minha piqueta inteira (e por vezes os meus joelhos) me deram
boas imagens de recordação, mas reduziram o meu ritmo consideravelmente,
sugavam minha energia e me deixaram em estado de alerta pela
possibilidade de gretas. Pegadas frescas de ursos (como o que havia
filmado dias antes invadindo a cidade), cervos e outros animais
distraíam a minha mente e a cada passo a paisagem se mostrava mais bela.
Ao chegar ao topo da
crista que divide a enorme barbatana de granito do Capitol,
percebi o porque dizem que tal escalada é exposta e arriscada. A via é
praticamente óbvia, bastando seguir pela longa aresta, formada por
lanças de pedra eriçadas, rumo ao cume, um tanto distante no horizonte.
Porém poucas eram as agarras sólidas e a todo instante sentia pedras se
desprendendo sobre os meus pés. Era preciso escalar sem forçar muito as
agarras, distribuindo bem o peso do corpo entre as mãos e os pés.
Pra piorar, a última
nevasca havia coberto quase 80% da rocha nos trechos mais positivos e a
maioria das fendas e saliências verticais estavam cheias de neve ou, por
vezes, gelo. Como esta rota normalmente é escalada em rocha pura, não
havia levado luvas nem calça impermeável (os crampons e a piqueta
eram apenas para a aproximação)... e na primeira meia hora minhas meias
já estavam ensopadas pelo gelo que entrava pela bota e meus dedos dos
pés e das mãos já estavam gelados como um picolé.
A rota se estende
por uma centena de enfiadas curtas, de 5 a 50 metros cada, intercaladas
por pequenos platôs aéreos, sempre descortinando penhascos para ambas as
faces da montanha.
A cada lance,
precisava limpar as fendas com as mãos desabrigadas, cavando a neve com
os dedos e com as pontas dos crampons (mais tarde descobri que
nestas condições a rota é graduada como classe 5).
Apesar de ter
diminuído o meu ritmo, ainda ia bem, conseguindo baixar os tempos de
cada parte da escalada consideravelmente.
Um dos lances mais
complicados da via é a escalada do K2, um cume à parte ao longo
da aresta - dezenas de metros verticais e que eu juro que dou todo o meu
equipamento se alguém encontrar alguma agarra sólida em sua face. Sem
croqui, mandei o K2 por uma variante mais difícil, algo como um
5º grau, mas em agarras soltas, por entre blocos de centenas de quilos
que endureciam cada uma das minhas vértebras a cada vibração. Show de
horror: minhas mãos já estavam congeladas (sabe aquela dor terrível que
parece que tem caco de vidro por dentro dos dedos? Então... rs), os meus
pés raspavam desesperadamente a neve por entre os blocos de pedra em
busca de alguma reentrância e uma nova pedra sempre ricocheteava ao
vazio antes mesmo da anterior se calar sobre os 700 metros da face norte
da montanha. Sinceramente, foi a sensação de que a cada agarra dominada
eu ficava menos exposto que me levou ao topo do K2 e eu ainda não
sei se amei ou odiei descobrir na volta um caminho mais fácil, que
contorna pelo lado esquerdo do K2.
Bom, com a calça tão
ensopada como as botas, enfim iniciei o infame e intimidativo Knife
Edge, que de tão estreito obriga os escaladores a escalar
ridiculamente em posição de “cavalinho” infinitas vezes por quase um
quilômetro (!)... em outras centenas de metros a crista permite que você
escale de pé, mas ainda com penhascos para ambos os lados.
Em algumas horas,
confesso que já tinha passado pelo menos uns 5 momentos de forte terror
(daqueles tipo “Quê que eu tô...”) e pensado em desistir ao menos umas
357 mil vezes (ou mais). Escalava e desescalava como nunca fiz na vida e
sempre quando pensava em desistir, dominava um novo platô, respirava,
pensava, respirava, pensava um pouco mais e ganhava coragem para tocar
adiante.
Por diversas razões,
não conseguia relaxar, nem me concentrar e ter prazer durante a
escalada, parecia que continuava mais pela obrigação de já estar ali, de
ter ido tão longe. Constantemente me perguntava como eu faria para
desescalar tudo que havia escalado. Foi somente do meio da escalada em
diante, após um sanduíche sentado com uma perna para cada uma das faces
da montanha, olhando uma das paisagens mais incríveis que já vi na vida,
que consegui entrar em uma sintonia legal e tocar a escalada com prazer.
O medo continuava violento, mas eu já não me incomodava com as pequenas
pedras que despencavam, o sol diminuíra a dor dos dedos e enfim voltei a
escalar com velocidade. Até mesmo a escalada em rocha com crampons,
algo que tenho pouca experiência, começou a fluir.
Apesar da corrida
contra o tempo, precisava recuperar a respiração a cada lance, momento
em que filmava, sacava algumas fotos e comemorava o privilégio de estar
ali, com algumas das maiores montanhas dos EUA se descortinando ao meu
redor.

Reanimado com a
progressão, feliz por estar mandando lances de até 4 horas em menos de
2, com a aresta final cada vez mais próxima, pela primeira vez cheguei a
acreditar que faria cume.
E faltando apenas
uns 20 minutos para o cume, nos cocorutos finais – já bem menos expostos
e mais positivos – que por um triz não virei estatística – seja do
Capitol ou da máxima de que “a maioria dos acidentes acontecem nos
fáceis metros finais da montanha”. Ao tentar levantar do ridículo
cavalinho que estava, tentando dominar uma paredinha de blocos
empilhados de uns 3 metros, agora pela face sul da montanha, fui
surpreendido ao ver um enorme batente de pedra de uns 200 quilos se
soltar em minhas mãos...o reflexo me jogou de volta para trás,
arrastando a bunda o quanto podia pela crista e tentando me agarrar em
qualquer coisa que tocasse minhas desesperadas mãos... enquanto dezenas
de pedras menores orquestravam a pior música que já ouvi na vida, rumo
ao fundo do vale. Meu reflexo na verdade não serviu para muito, contei
muito mais com a sorte, já que tudo aconteceu tão rápido que quando
pensei em me proteger o bloco já havia descido... por sorte, por fora de
meu corpo.
Apavorado, após o
susto inicial, a primeira reação que tive foi a de me proteger, tentando
me fixar à rocha da melhor forma possível, entalando mãos, deitando as
costas em alguns blocos, apertando a crista por entre as minhas pernas
com tanta força que quase matei o cavalo que montava... também, uma
enxurrada de pensamentos autopunitivos e me xinguei algumas vezes em
alto e bom som. Mas o que estava feito estava feito e com o passar do
tempo percebi que tudo isso faz parte do que nos leva para a montanha,
que não estava sendo imprudente e que deveria tirar proveito positivo do
ocorrido. Arriscando a pele como escalador desde 95, já havia passado
por situações que quase me impediram de estar aqui hoje contando
lorotas, mas em geral foram apenas “sustos” por “quase” ter ido pro
saco... sempre comemorando o fato de nunca ter sofrido um acidente. Pela
primeira vez, senti na pele algo maior, algo palpável, assustador em
seus primeiros minutos, mas que muito me engrandeceu diante de objetivos
futuros.
Em passo de
tartaruga, repetindo um mantra de recomendações de atenção a cada
movimento, pé ante pé, desescalei esta imponente e majestosa montanha,
que se manterá até o meu último dia de vida em minha mente... se tudo
der certo, com outras lembranças após a minha provável volta.
Para os interessados
em tentar esta belíssima e marcante escalada da terra do tio Sam ou
mesmo se aventurar por algum dos gigantes do Colorado, as melhores
pedidas são as páginas mantidas por Bill Middlebrook www.14ers.com e
www.13ers.com , com mapas, croquis das vias e trilhas, fórum para
dúvidas, metereologia local e mais de 20 mil fotos das mais importantes
montanhas do estado.
Agradeço a força de
meus patrôs - Solo Goretex e Windstopper- marcas empenhadas em
contribuir diretamente com o desenvolvimento coerente do montanhismo
nacional.
Até a próxima,
valeu!
Leia mais matérias
na edição impressa.
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