Os caminhos do montanhismo
 

Silvério Néry, SP

Este é o Mountain Voices número 100. A criação do Eliseu e da Beth Frechou atravessou sem interrupção os últimos 18 anos, mantendo aberto um excelente canal de intercâmbio de informações para a comunidade excursionista no Brasil. Participei de várias fases do MV, escrevi alguns relatos pessoais de aventuras que me marcaram, mantive uma coluna durante alguns anos, a “Internacional” e depois acabei deixando de colaborar, por força da inevitável falta de tempo, com o excesso de compromissos que assumi quando abracei a presidência da FEMESP e depois da CBME.

Por ocasião dessa edição especial os editores do MV - que agora são cinco (a família cresceu): Beth, Eliseu, Vitor, Artur e Jorge - merecem os mais efusivos cumprimentos pela garra e dedicação com que se dedicam ao projeto. Durante esses anos todos várias publicações sobre excursionismo e montanhismo apareceram e (infelizmente) desapareceram, evidenciando a dura tarefa que é manter vivo por tanto tempo um veículo de mídia impressa dedicado ao assunto que tanto nos fascina. A família Frechou merece os parabéns de toda a comunidade excursionista por esse impressionante marco de 100 números publicados!

Durante esses 18 anos o MV acompanhou e noticiou grandes transformações no Montanhismo nacional e internacional. Em 1990 informações sobre técnicas e equipamentos eram escassas no Brasil. A primeira loja especializada em equipamentos para excursionismo do Brasil, a Alpimonte, foi fundada em 1991, em São Paulo. Adquiríamos mosquetões e cordas através de amigos que viajavam para o exterior. Naquela época, do alto da minha inexperiência, pedi a um amigo para trazer da França uma corda “de escalada”, e na falta de uma descrição mais precisa ele me trouxe 60 metros de uma bela corda estática marca Edelrid. Acabei vendendo essa corda para um amigo que praticava espeleologia e canyoning e comprei minha primeira corda dinâmica de outro amigo viajante. O Mountain Voices começou nessa época, trazendo informações de fora através da tradução de artigos publicados em revistas como a High inglesa e a Climbing americana, junto com colaborações voluntárias de excursionistas brasileiros.

Em seu número 1 o MV trazia um artigo traduzido da High pelo Jorge Tesliuk, o mítico “Naval”, de tom aparentemente pessimista sobre os limites do Alpinismo. Hoje, como naquela época, especula-se com certa freqüência sobre o número limitado de montanhas virgens para se conquistar. Naquela época, Reinhold Messner havia completado recentemente a escalada dos 14 cumes com altitude superior a 8.000 metros e esse feito extraordinário parecia estabelecer um limite para novas conquistas. Por outro lado, com o advento das paredes artificiais, a escalada esportiva conquistava um público cada vez mais jovem que, apesar de estar escalando, não praticava montanhismo no sentido clássico, o da aventura de desbravar encostas desconhecidas. Essas diferenças de enfoque foram habilmente exploradas por Werner Herzog em seu belo filme “Scream of Stone” (No Coração da Montanha, na tradução brasileira), em que um escalador esportivo “típico” do início dos anos 90, trajando as famosas malhas de lycra de cores extravagantes (protagonizado por Stefan Glowacz, um dos melhores escaladores esportivos do mundo até pouco tempo atrás) travava um duelo com um montanhista tradicional na conquista do cume “virgem” (no filme) do Cerro Torre.

Olhando em perspectiva vemos que tanto o montanhismo clássico quanto a escalada esportiva evoluíram muito além do previsível em 1990, com alguns interessantes intercâmbios de técnicas entre as duas vertentes, muitas vezes consideradas imiscíveis.

No montanhismo clássico, com a abertura dos países do antigo bloco comunista, surgiram inúmeras possibilidades de novas conquistas de cumes virgens na faixa dos 7.000 metros de altitude. Se um dia o Afeganistão e o Irã se tornarem países amigáveis para a prática do montanhismo, sem dúvida ainda mais montanhas com cumes virgens se tornarão conhecidas e poderão ser escaladas.

Mas a falta de cumes virgens não será obstáculo para que o montanhismo tradicional continue seu desenvolvimento técnico. Num interessante exemplo de intercâmbio de influências, o montanhismo tradicional acabou incorporando técnicas da escalada esportiva e de big wall, abrindo as portas para a conquista de vias bastante ousadas em grandes altitudes que misturam aproximação e escalada técnica em neve e gelo e escalada livre e/ou artificial em rocha de grau extremo de dificuldade. Basta observar os feitos dos vencedores do prestigioso prêmio Piolet d’Or nos últimos anos para perceber que essa mistura de técnicas parece ser a fronteira atual da escalada em grandes montanhas.

Outra vertente de desenvolvimento da escalada com mistura de influências aconteceu na escalada em gelo, particularmente das cascatas congeladas. Essa modalidade experimentou uma evolução impressionante ao incorporar alguns elementos e principalmente a filosofia da escalada esportiva em rocha, tais como vias trabalhadas, proteção colocada previamente, red point, etc. Com isso a escalada de cascatas congeladas evoluiu para graus extremos de dificuldade, destacando-se como modalidade competitiva independente. Hoje é comum se falar em dry-tooling, a técnica de escalar porções não cobertas de gelo de cascatas congeladas (ou seja, rocha) com piolets e crampons especialmente desenvolvidos para essa finalidade. Em 1990 o dry-tooling ainda não tinha sido inventado, o que dá uma idéia da rapidez e do inusitado na evolução de nosso esporte.

Na escalada em rocha, seja na vertente mais tradicional das grandes e médias paredes, seja na escalada esportiva, a evolução também foi constante e muitas vezes surpreendente. Os limites de dificuldade não param de ser ultrapassados e a cada 10 anos mais ou menos surge a necessidade de se criar um novo grau de dificuldade, como aconteceu com a famosa Biographie Extension (também conhecida como Realization), o primeiro 5.15 do mundo, escalada (red point) por Chris Sharma em 2001. Enquanto isso as grandes paredes rochosas do mundo tem sido escaladas cada vez mais rapidamente em estilo cada vez mais ousado e “limpo”, do ponto de vista do impacto causado pelas proteções. Em Yosemite os recordes são impressionantes. Inúmeras vias conquistadas e repetidas durante anos em artificial foram escaladas em estilo livre, estabelecendo-se novos parâmetros para grandes paredes. O marco mais importante dessa série foi a escalada totalmente em livre do The Nose em um dia pela Lynn Hill em 1994, estabelecendo o grau alternativo 5.13d para essa via clássica de Yosemite e mostrando que era possível escalar big wall em livre e cada vez mais rápido. Afirmar, por exemplo, em 1990 que alguém havia escalado The Nose em menos de 3 horas poderia parecer piada, mas hoje em dia as técnicas do speed wall climbing se disseminaram amplamente e estão sendo utilizadas em grandes paredes localizadas em áreas remotas, como a Patagônia e o Paquistão.

Houve também uma impressionante evolução da escalada em boulder, que em 1990 era uma modalidade de poucos adeptos, mas que em anos recentes se tornou quase uma coqueluche, atraindo parcela cada vez mais numerosa de iniciantes e veteranos da escalada esportiva. Muitas áreas novas foram “descobertas” e a escalada de boulder tornou-se modalidade competitiva independente.

Esses exemplos mostram que as possibilidades são imensas, quase infinitas, e que o Montanhismo parece se desenvolver e se renovar graças à liberdade de escolha e ao intercâmbio de técnicas e estilos diferentes. A resposta mais plausível para a pergunta-título do artigo citado, publicado no Mountain Voices número 1: “Será que o Alpinismo já atingiu seu Cume?”, é naturalmente “Não”, mas não é só isso: estamos muito longe de qualquer estagnação. É interessante constatar, através da experiência e da observação, que o desenvolvimento do Montanhismo se dá graças à diversidade de estilos e modalidades, cada qual desenvolvendo técnicas cada vez mais apuradas que depois são “copiadas” por praticantes de outras modalidades, provocando novos e surpreendentes surtos evolutivos. Seria um tipo de evolução análoga ao que se observa na música, em que o samba ou o rock podem se misturar ao jazz ou ao funk, dando origem a novas e empolgantes vertentes musicais.

Ao invés de tentar criar regras e estabelecer padrões rígidos, a história nos indica que o melhor caminho para manter o Montanhismo em constante evolução é respeitar o princípio da liberdade de escolha, permitindo e incentivando a criação e a manutenção de vias dos mais diversos graus de dificuldade, em todos os meios (rocha, neve, gelo e resina) e com a maior variedade possível de graus de exposição e comprometimento. Observado esse princípio, haverá evolução constante e vias para todos os “paladares”. Que o Mountain Voices possa ter vida longa e continue sendo testemunha e prova documental dessa evolução.


 

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