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Paixão pela cordilheira Blanca
Danielle Pinto,
SC
Formamos o grupo
Escaladoras do Sul em 2008, unindo mulheres que adoram uma aventura
pelas montanhas. Desde então estamos tentando realizar viagens juntas
para escalar em cordadas femininas.

Andrea e Simone estiveram no Frey em janeiro deste ano e realizaram
várias escaladas. Na última temporada de inverno, conseguimos nos reunir
eu, Luana e Andrea para ir a Cordilheira Blanca.
A Cordilheira Blanca , uma dorsal andina situada no Peru, é considerada
a cadeia montanhosa tropical mais alta de nosso planeta. A maioria de
seus cumes nevados superam os 5 mil metros de altitude e apresentam
dificuldades de todo tipo. Huaraz é a cidade base para acessar suas
montanhas e recebe turistas de vários lugares do mundo durante a
temporada, que vai de maio a setembro. A cidade está situada a cerca de
3000 metros do nível do mar, o que já causa um desconforto logo na
chegada. Existem dezenas de opções de diversão para todos os gostos mas
o que predomina na região é a escalada em alta montanha. Estivemos
durante dois meses nesta região, onde tivemos a oportunidade de tentar a
subida de seis montanhas, tendo êxito em quatro delas. A aclimatação é o
que mais influencia, principalmente para os brasileiros que estão
acostumados mesmo é com praia e calor.
Nossa “barca” estava composta por três meninas brasileiras, o que
causava certo estranhamento entre os outros escaladores.
A Andréia (Soares, 30, Floripa) e a Luana (Hudler, 36, Joinville) já
haviam estado na Cordillera Blanca em 2008, e eu estava estreando na
neve.
Aclimatação e escalada em rocha
Nossa primeira incursão por aquelas montanhas foi na Quebrada Cayesh,
onde tentaríamos subir o Maparaju, nevado de 5326m de altitude,
classificado como fácil, porém não muito visitado. Os efeitos da
altitude já foram sentidos no acampamento base a 4600m. A Andréia e a
Luana estavam um pouco melhores e saíram para tentar o cume, mas
desistiram na entrada do glaciar devido à lentidão e o cansaço, causados
por má aclimatação.
A segunda investida na montanha foi na Quebrada Llaca. O plano desta vez
era aclimatar escalando em rocha durante dois dias no acampamento base,
e depois subir para o acampamento moraina do Vallunaraju, montanha de
5675m de altitude. O acampamento moraina fica perto do glaciar, a cerca
de 5000m de altitude e foi possível realizar durante três dias práticas
de técnicas de caminhada em glaciar, sistema de resgate em greta e até
escalada em gelo. No terceiro dia estávamos tão cansadas e esgotadas de
permanecer tanto tempo a cinco mil metros que desistimos de tentar a
subida ao cume.
De volta a Huaraz tiramos férias dos nevados e fomos escalar em rocha em
Hatun Machay, um sitio de escalada deportiva localizada na Cordillera
Negra, há cerca de 60km de Huaraz e a 4300m de altitude. Puro desfrute,
com vias bem protegidas, sol quente, céu azul e tudo isso ao nosso
alcance caminhando apenas quinze minutos. Depois de sete dias de
escalada em Hatun todas conseguiram evoluir um pouco, ganhar mais
confiança e finalmente se aclimatar a altitude. O próximo destino era a
Esfinge.
A Esfinge é uma montanha de granito com vias de até 750m, seu cume está
a 5325m de altitude, localizada na Quebrada Paron. Um grande desafio
para nós três. Chegado o dia D, acordamos às 5 da manhã, caminhamos até
a base da via e com as primeiras luzes do dia começamos a escalada. O
plano era no primeiro dia escalar até o grande platô, ao todo 9
cordadas, passar a noite ali mesmo e no outro dia escalar as 10 cordadas
restantes, trecho que segundo informações, era mais fácil tecnicamente,
porém, mais exposto e de difícil orientação. Fomos bem até a quinta
cordada. Mas quem escalava de segundo sofria com as duas mochilas
pesadas, que carregavam sacos de dormir, jaquetas de plumas, comida e
água. Como a escalada seguia lenta e as mochilas cada vez mais pesadas,
decidimos descer. Como consolo o tempo fechou e nevou durante a noite.
Foi bom estar na barraca e não no platô. A Esfinge continua lá, e a gana
de voltar ainda vibra por aqui.

Cumes Nevados
O próximo destino escolhido pelas três foi a Quebrada Ishinca, local de
acesso para a escalada dos nevados Urus, Ishinca e Tocllaraju. A Luana
fez duas tentativas ao Tocllaraju com expedições distintas, mas o tempo
não estava favorável. Eu e a Andréia fomos para o Urus (5495m) e o
Ishinca (5530m). No Urus começamos a caminhar na moraina as quatro da
madrugada, a Andréia não se sentiu bem e desceu. Continuei, chegando ao
cume as oito da manhã e às dez já estava de volta ao acampamento. O
tempo estava lindo, céu despejado e sem vento.
Na madrugada marcada para a subida do Ishinca o tempo começou a cambiar,
ventava forte. Mesmo assim seguimos com o nosso plano. Eu e a Andréia
iniciamos a caminhada às quatro da madrugada e às dez da manhã estávamos
no cume, permanecemos ali trinta segundos pois o tempo estava cada vez
pior. Finalmente depois de tomar muita surra na Cordillera Blanca fomos
presenteadas com uma escalada bem sucedida e lindas fotos de cume.
Alguns dias em Huaraz para reabastecer as energias, e aqui a nossa
“barca” se separa. A Andréia volta para o Brasil para trabalhar. A Luana
realiza um sonho e vai escalar o Alpamayo. E eu fico em Huaraz esperando
a Luana para seguirmos com os nossos projetos. Alguns dias depois a
Luana volta e nós duas seguimos para tentar o Pisco, na Quebrada
Llaganuco, onde também estão localizados os acampamentos base do
Chopiqualqui e do Yanapacha.
Fizemos a ascensão ao Pisco, 5752m, em três dias. No primeiro fomos até
o acampamento base. No segundo subimos ao acampamento moraina e na
madrugada saímos para o ataque. Entramos no glaciar às quatro da manhã,
às oito estávamos no cume e às dez da manhã comendo macarrão já de volta
ao acampamento moraina. Descansamos um pouco e descemos ao acampamento
base. Pachamama nos presenteou com um lindo amanhecer, clima perfeito e
um visual incrível. Do cume do Pisco se pode ver o Artesonraju, o
Alpamayo, o Quitaraju, o Chacraraju e até a Esfinge, que continua
esperando por nós.
A última empreita foi o Vallunaraju, afinal já havíamos estado lá, já
conhecíamos a entrada no glaciar e é uma montanha próxima de Huaraz, com
fácil acesso. Em dois dias conseguimos fazer toda a correria. Saímos de
Huaraz por volta do meio dia, chegamos ao acampamento moraina por volta
das quatro da tarde, com bastante tempo para descansar e comer. Na
madrugada, por volta das cinco da manhã, iniciamos a subida ao cume. A
montanha, apesar de ser tecnicamente fácil, é muito impressionante, com
gretas, pontes e blocos de gelo e uma linda cornisa para se chegar ao
cume. Por volta das nove da manhã estávamos no cume apreciando o
Huascarán e o Chopicalqui no horizonte. E no fim do dia em Huaraz, de
volta ao pisco e as conchitas.
Foram sessenta dias de Cordillera Blanca e não vejo a hora de voltar.
Sei que minhas parceiras sentem o mesmo. A grandiosidade do lugar
assusta, encanta e apaixona. Os desafios, os medos, as vitórias, a
superação, a amizade e o aprendizado foram intensos durante esta
temporada. Estivemos sempre escalando em cordadas femininas, não usamos
porteadores nem guias. As montanhas que subimos são tecnicamente
acessíveis e bem freqüentadas, porém exige preparo físico, uma boa
aclimatação e muita gana.

Uma visita ao Alpamayo
Luana Hudler, SC
Além das empreitadas com Dani e Dea na Cordillera Blanca, tive a
oportunidade de participar de uma expedição a uma de suas montanhas mais
bonitas. Quando estivemos na Quebrada Ishinca, conheci um pessoal que ia
escalar o Alpamayo pela rota francesa, com guia e cordas fixas, e um
venezolano deste grupo também gostaria de escalar o Quitaraju, pela
aresta Oeste. Eu tinha muita vontade de conhecer a Quebrada Santa Cruz,
muito famosa por sua beleza, e também de fazer um intento no Quitaraju,
um seis mil que fica de cara para o Alpamayo. Tendo esse objetivo em
comum, me convidaram para participar da expedição e também para formar
uma cordada para tentar o Quitaraju. Escalar com cordas fixas não era o
estilo que eu gostaria de escalar o Alpamayo, no entanto, não resisti à
oportunidade de ganhar alguma experiência e de conhecer uma rota naquela
linda montanha.
Fizemos a aproximação ao acampamento avançado do Alpamayo em quatro
dias, os três primeiros foram de puro desfrute. No quarto dia finalmente
entramos no glaciar e aí começou a verdadeira emoção de estar na alta
montanha. Do campo morena ao campo alto foram cerca de quatro horas de
caminhada pelo glaciar, com algumas gretas e pendentes suaves. Os
trechos finais possuem inclinação de 30o a 45o e levam ao colo Quitaraju/Alpamayo.
O acampamento fica entre essas duas impressionantes montanhas, a 5.400m
de altitude. Quando chegamos aí o tempo estava completamente fechado. O
clima permaneceu assim durante toda a estadia no campo alto,
privando-nos da tão esperada vista das montanhas. Mesmo assim foi
emocionante estar naquele lugar.
Na madrugada do dia seguinte saímos do acampamento e chegamos na base da
rota francesa às duas da manhã. Três companheiros não puderam prosseguir
pois passaram mal. Fomos então eu, o venezolano Raul, o guia e o
assistente peruanos. A parede já estava equipada com cordas fixas em
toda sua extensão de 400m, com reuniões a cada 60m feitas com estacas e
abalakovs, tornando a escalada absolutamente simples e fácil, porém
exigente fisicamente. A rota possui inclinação constante de uns 75o e a
última cordada é mais empinada, uns 85o-90o. Poderia ter usado um jumar
mas preferi escalar com dois piolets técnicos, usando um tibloc na corda
fixa para me dar segurança e a solteira como backup. Escalamos os 400m
em um tirón de duas horas, chegando no cume, a 5947m, pouco antes das
cinco da manhã, sem vista nenhuma pois além de estar totalmente escuro
haviam muitas nuvens.
A baixada também foi simples, eu e Raul rapelávamos na frente e os guias
vinham recolhendo as cordas. As sete da manhã já estávamos de volta no
acampamento. O clima continuaria fechado por mais alguns dias então
acabamos desistindo de encarar o Quitaraju e começamos a fazer o caminho
inverso na quebrada Santa Cruz.
Foi uma experiência diferente onde pude desfrutar o puro prazer de
escalar 400m de gelo, numa montanha maravilhosa, num lugar maravilhoso.
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