Altos da Mantiqueira

Até quando poderemos andar livres pelas serras?

Por Alberto Ortenblad, SP

 

Conheça a seguir a proposta de criação de um novo Parque Nacional, ao longo do espigão central da Mantiqueira, unindo o Horto Florestal de Campos do Jordão ao Parque de Itatiaia. E as razões pelas quais sou infelizmente contrário a esta iniciativa.

Está sendo gestado mais um Parque Nacional no Brasil, unindo as terras do espigão central da Serra da Mantiqueira. A proposta da criação do PNAM - Parque Nacional Altos da Mantiqueira é bem recente, datando de 2009. Foi preparada pelo ICM Bio – Instituto Chico Mendes, o mais novo órgão ambiental do Governo. Ele substituirá o IBAMA na gestão das Unidades de Conservação e na defesa da biodiversidade (como os centros especializados em vida nos mares ou nas cavernas).
As consultas públicas em cada município atingido foram iniciadas em março de 2010. Embora o ICM esperasse ter o assunto resolvido em dois meses, sabe-se que o processo tem levantado oposição por parte das populações afetadas. Este artigo procura descrever a extensão pretendida para o novo Parque, explicar as justificativas para sua criação e apresentar a minha opinião - no caso, negativa.

 
A Localização

O PNAM deverá estender-se entre o Horto Florestal de Campos do Jordão e o Parque Nacional de Itatiaia, que foi por sinal o primeiro criado no País. Neste percurso de aproximadamente 100 km, deverá englobar três grandes formações - a Serra dos Pilões, o Maciço dos Marins e a Serra Fina - ligando-as ao Planalto de Itatiaia. Serão 87 mil hectares - adicionados aos dois Parques já existentes em cada extremidade, totalizará 124 mil hectares.
O PNAM atravessará 16 municípios ao longo dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e (minimamente) Rio de Janeiro. Cerca de dois terços de sua área estará em São Paulo e o restante, em Minas. Haverá municípios fortemente afetados, como Piquete, Queluz, Passa Quatro e Delfim Moreira, que deverão ceder algo como um terço de seus territórios. Outros quatro perderiam um quarto de suas áreas.
Devido à forte declividade da região, apenas 10% do total seria representado por afloramentos rochosos e campos de altitude. Como a proposta procura alcançar as encostas nos lados paulista e mineiro da serra, as florestas que as recobrem corresponderiam a 80% do PN, de longe a maior parte de sua área.
Devido à importância da Serra da Mantiqueira, esta região é sujeita a uma razoável vigilância ecológica, de tal forma que 50% da área do PN já é composta por APAs. Mas deve também ser lembrado que serão afetadas fazendas (de silvicultura e pecuária), casas de veraneio, empreendimentos imobiliários e pousadas (inclusive a tão antiga e especial Pousada do Barão).

A Justificativa

A principal razão para a criação do Parque é naturalmente a preservação do ecossistema da Mantiqueira. Ainda que situado próximo a várias zonas urbanas, ele é dotado de grandes maciços rochosos, cênicos campos de altitude, extensas florestas de encosta e inúmeras nascentes de rios. Seu relevo variando desde 600 a 2.200m de altitude favorece uma ampla biodiversidade.
Além disto, torna-se importante conectar os ecossistemas protegidos, não apenas conservá-los. Isto permite o trânsito das espécies entre os mosaicos interligados que, de outra forma, poderiam ficar ilhadas e vir a sofrer redução ou mesmo extinção. Exemplos recentes desta prática são o grande corredor ecológico do Jalapão em Tocantins e o imenso Parque da Serra das Confusões no Piauí.
Evidentemente, existem na região do PNAM várias espécies de fauna ameaçadas. Os estudos citam desde as onças pardas e os macacos muriqui até papagaios de peito roxo e macucos, além de variedades de cobras, sapos e borboletas. Em particular, a Floresta Nacional de Passa Quatro (contígua ao Parque) é considerada prioritária para a conservação de aves, bem como a Fazenda do Onça (inserida no Parque) para a de mamíferos.
Mas, muito simplesmente, basta caminhar pelos esplêndidos campos dos Pilões, pela preciosa crista do Marins ou pelas amplidões da Serra Fina para entender a necessidade de preservar a emocionante natureza da Alta Mantiqueira.

Os Problemas

Infelizmente, esta situação não é tão clara, pois existe um abismo entre intenção e execução. A meu ver, há três importantes razões que desaconselham, nas atuais circunstâncias, a criação deste Parque.
Primeiro, uma simples questão de justiça. As terras tomadas pelo Governo não costumam ser indenizadas. Considerem-se dois Parques bem conhecidos, nas proximidades do PNAM: Itatiaia e Bocaina. Em ambos, os proprietários sofrem uma série de constrangimentos e interferências, sem que tenham sido ressarcidos pelas áreas perdidas. Notem que estou me referindo ao primeiro Parque brasileiro, criado há mais de 70 anos!
Esta é a triste realidade em todo o País, de São Joaquim no Sul e do Jalapão no Centro-Oeste à Chapada Diamantina no Nordeste e Sete Cidades no Norte. Acho um absurdo criar novos problemas antes de resolver os antigos. Se o Governo não solucionou por décadas estas questões fundiárias, que mágica irá torná-lo capaz de fazê-lo agora?
Mas, mesmo quando há a intenção de indenizar, a situação é inerentemente injusta, pois cabe ao comprador definir o preço. E, na formação deste, não entram as benfeitorias posteriores à criação do Parque: imagine retroceder 50 anos no caso de São Joaquim ou 40 anos no da Bocaina. Existem outras minúcias que escapam à concisão deste artigo, nenhuma delas favorável aos infelizes ocupantes de áreas tornadas públicas.
Ao escrever este texto, veio-me à lembrança uma conversa com um sitiante que explorava a principal atração do PN Chapadas das Mesas, criado em 2005 no Maranhão. Naturalmente, ninguém havia até então sido indenizado, mas esperava-se uma proposta do Governo. “Aceite por qualquer valor, provavelmente será sua única chance de ainda receber algo”, disse eu a ele.
O segundo motivo é pior ainda. É muito comum nossos Parques serem simplesmente abandonados, com ameaças à flora e fauna. Quando subi a Pedra do Frade na Bocaina, caminhei grandemente por uma trilha de palmiteiros, como se o Parque fosse uma propriedade particular aberta à devastação. O melhor Parque brasileiro fica na Serra da Capivara, área que foi abandonada após a criação do Parque e depredada nos dez anos seguintes, até que fosse assumida por uma fundação privada.
Vale lembrar a existência de incêndios (em geral criminosos), gerados nos Parques pelas tensões criadas entre a insensibilidade do Governo e as necessidades das comunidades. Não é preciso retroceder muito para lembrar as tristes vistas calcinadas dos campos do Itatiaia, do Bandeira e da Chapada Diamantina.
Nunca vi nenhum guarda-parque nas grandes extensões da Serra do Cipó, da Chapada dos Guimarães, da Serra da Canastra ou dos Aparados da Serra – a razão é que simplesmente não existem ou, quando existem, preferem a sombra protegida das guaritas. Há Parques enormes – do Jaú com 2.300 mil ha, das Nascentes do Parnaíba com 700 mil ha ou da Serra das Confusões com 500 mil ha – com escassos um ou dois funcionários sediados em alguma vila distante, de onde nem de binóculos lhes é possível revelar a presença de lenhadores, mineradores ou caçadores.
Confesso que a terceira razão é de natureza egoísta. Lembro-me do tempo em que era possível percorrer as trilhas Rebouças-Mauá ou Ruy Braga em Itatiaia, antes que fossem proibidas. Os antigos contam como se hospedavam nos bem-conservados abrigos da Serra dos Órgãos ou do Pico da Bandeira, hoje demolidos ou depredados.
Pergunto quantas estruturas foram criadas na última década para acolher os andarilhos na Ilha de Superagüi, no Pico da Neblina, na Chapada dos Veadeiros, no Monte Roraima, no Araguaia ou no Parque das Emas. Vocês sabem que nenhuma. E quantos de nossos parques são minimamente sinalizados? Só conheço três com boa sinalização e quase todos os demais sem sinalização alguma.
Não seria surpresa descobrir, uma vez o PNAM instalado, que se tornaria proibido atravessar a Serra Fina ou percorrer a crista do Marins. Se é que os acessos a lugares tão especiais como os Pilões, o Onça, o Itaguaré ou a Mina não estariam fechados por imposições arbitrárias. Ao escrever estas linhas, me vem a recordação da narrativa de amigos que tiveram de contornar a guarita do Parque de Itatiaia, a fim de nele entrar despercebidos, para passar alguns dias maravilhosos num espaço que lhes era negado, embora pertencesse a todos nós.


 


 
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